quarta-feira, 16 de março de 2016

FOLAR - BOLECA COM OVO



FOLAR – BOLECA COM OVO
 
Tinha, precisamente, cinco anos e meio de idade, era Domingo de Páscoa, a minha mãe logo de manhã mandou-me a casa do avô buscar uma garrafa de vinagre.
O abastecimento de vinagre, lá em casa, era sempre da adega dos avós paternos, que mantinham um barril com o mesmo, feito da sua produção de vinho.
Tudo bem portanto!
Havia ainda dois tios solteiros, saudando-me com certa euforia disseram, como se isso aos meus olhitos de criança fosse alguma coisa de outro mundo:
- À tarde vêm cá todos, hoje é Domingo de Páscoa e a avó fez bolecas com ovo e vai dar uma a cada neto!...
 
- A minha resposta, com ar de irradiante felicidade:
- Não preciso, a mãe também cozeu ontem e fez uma boleca para cada filho!...
- Tios em uníssono, com ar pouco amigo:
- Ah… Não precisas!...
- E, a avó está tão contente por ver e presentear o conjunto dos netos!...
 
- O ar de pura reprovação, e ensinou-me algo. Mas só mais tarde, pensei que aconteceu uma humilhação, mais que inadequada para uma criança de tão tenra idade.
Aqueles meus tios não tiveram o mínimo de sensibilidade para sentir a criança de índole “fresca”, ao mesmo tempo humilde que eu era.
Na altura, nem conhecia a palava, mas senti-me humilhado, sobretudo com o tom de voz.
Humilhado… A tal ponto que a mãe à tarde, muito procurou por mim mas em vão, já não me encontrou.
Até que resolveu ir a casa dos avós com os outros três filhos, sem mim o mais velho.
Segui a mãe à distância, sem ser visto. Não pude deixar de me comover, porque senti a grande preocupação da minha mãe.
Com o assunto arrumado, logo me instalei, tristonho, em casa.
Fazia parte da reunião, a professora, que vinda de Alcafache, Viseu, a Dona Justina, era amiga da casa e consequentemente, considerada pelos avós.
É pelo facto dela lecionar ali naquele ano, que preciso exatamente a minha idade.
Quando equaciono o caso, verifico que os meus avós, nem sequer se dignaram entregar à mãe uma boleca para mim, outro erro!
Passaram umas boas dezenas de anos e nunca esqueci o fato. Fixado na memória, jamais esqueci o fato.
Não dei uma reposta correta, tanto mais que a educação austera, diria mais conventual, paterna, não se coadunava, mas afinal eu era uma inocente criança e devia haver certo cuidado de aproveitar a oportunidade, propícia a um ensinamento prático, que decerto eu aceitaria de bom grado.
Adultos a humilhar traquinices de criança, a falar à mesma, considero errado.
Um miúdo quer-se aberto, os adultos têm de ter  por força, a preparação para observar o pensamento delas e tentar corrigir sem humilhar.
Se uma criança diz não gosto de ti, não vamos responder a dizer:
 - Também não gosto, calha bem!
Porque não fazê-lo de outro modo?
Dizendo:
- Gostarei sempre de ti!...
Normalmente a criança olha, vê-se nela a sensação de um certo prazer, como quem diz - Afinal sou estimada!
E dar prazer aos outros, sobretudo a crianças, é agradável!
O ensinamento, sem se ver, persistirá e ficará sempre no seu íntimo, como gratificante.
Naquele caso, a memória que guardo destes tios é a de que nunca os deixei de olhar de soslaio, quero dizer, de modo nada positivo.
 
Boleca com ovo, feita nos meus anos quarenta, com mais ou menos arte, era o nome dado na aldeia do meu nascimento a um tipo de pão branquinho, de farinha de trigo, mais pequeno cozido com um ou dois ovos, um dos modos, com que padrinhos, tios, avós ou pais distinguiam a sua petizada pela Páscoa.
 
Daniel Costa
 
 

6 comentários:

  1. Linda a história, sei que é difícil mesmo para as crianças esquecerem um olhar reprovador, as palavras nem sempre são guardadas, nem todas entendem todos os significados delas, mas o olhar, a voz grave de quem não está aprovando algo é mesmo de marcar!
    Somente quando nos tornamos adultos é que vamos entender, mas enquanto isso, a dor permanece por tempo que parece infindo!
    Amei ler e conhecer um pouquinho mais de sua vida de infância, lembranças que ficam muito mais vivas a medida que o tempo passa, tenho muitas, algumas não tão boas, as que gosto de me lembrar sempre são as boas, tive muito mais coisas boas que ruins, acho que por isso vivo sempre otimista.
    Abraços apertados querido amigo, esperemos boa páscoa!

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  2. Linda história de vida a sua, Daniel. Mesmo com todas as provações você sabe descrevê-la brilhantemente.
    Beijo*

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  3. Essas histórias todos passamos, eu entendo, temos um orgulho em dizer que nossa mãe, ou na nossa casa também tinha tal coisa. Não passava de orgulho, mas pouco sabíamos nos relacionar. Criança fala a verdade sem 'tititis'. E é inacreditável como levamos certas coisas para o resto da vida.

    bjus, Daniel!

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  4. Querido amigo Daniel, estou aqui passando para conhecer e deixar meu abraço de boas vindas a mais esse manancial que vai enriquecer nossas leituras...

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  5. Querido amigo Daniel, estou aqui passando para conhecer e deixar meu abraço de boas vindas a mais esse manancial que vai enriquecer nossas leituras... bjos

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  6. "Boleca"...

    Esse nome soa engraçado aqui no Brazil.

    kkk

    Beijo pra você!

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