quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

RUA DO SÉCULO

Foto de Daniel Cordeiro Costa.
Foto de Daniel Cordeiro Costa.
RUA DO SÉCULO
Apesar de tudo, o João Moisés mostrando, em muitas ocasiões o seu desagrado, foi descendo a longa artéria a que o Século, jornal de boas recordações, deu nome.
Enquanto ia respondendo a anúncios de emprego, em que se especializara outro matutino, o Diário de Notícias, que já saíra do Bairro Alto, deixando também a grandeza do seu título a denominar a respectiva Rua.
Uma vez que também agora havia uma acalmia no trabalho, talvez em virtude de as obras em tipografia, estarem aos poucos a declinar, por causa do avanço do offset, que dispensava zincogravuras e ainda porque o jornal A Capital, se foi instalar em edifício próprio, constituindo oficina, as horas extra deixaram de existir. Por outro lado o João já não tinha de perder tempo com ideias namoradeiras, tratou de cumprir um velho sonho, ter uma segunda ocupação, aquilo que se denominava um biscate.
Seguindo a sua intuição, tornou-se agente de seguros de vida, para uma companhia estrangeira. Tendo conseguido algum êxito, depressa passou a receber informações respeitantes a possíveis segurados, para trabalhar, do que ia tirando resultados, porque havia regular formação específica e sendo caso disso chegava-se a um acompanhamento por peritos.
Com a evolução produtiva, o responsável do núcleo tinha autonomia de fazer subir ao escalão do interessante factor comissões, afinal o sistema de remunerações, o que era estimulante. Estava a ser atractiva a actividade, por proporcionar mais contactos e a entrada num outro mundo sociológico.
No seguimento desse campo de acção, deu-se início a um novo tipo promocional, o de convites, para a presença em jantares com os próprios administradores, onde se podiam, em conversas, versar todos os assuntos e também seguros de vida. Normalmente terminava-se num “Pub”, onde uma bebida era o culminar de uma agradável sensação do dever cumprido.
Pode-se concluir um grupo de pessoas de profissões distintas, assim como de interesses pessoais diversificados. Num desses encontros um elemento mostrou cultivar o estudo da personagem, pela leitura das linhas da palma da mão.
Fazia-o apenas na perspectiva do entretenimento, João Moisés, afinal só acreditando no positivo mental, nunca deixava escapar qualquer ocasião que se lhe deparasse entrar na área do exotérico, dando a mão ao estudo do colega, teve a “revelação” de que trilhava um caminho de sucesso mas, nesse campo, as respostas a questões eram sempre inconclusivas, pelo que achou esse mas, a palavra adequada, para um final certo da conversa.
Não sendo crente, nem de longe das teorias, como cartomancia ou outras leituras, signos, etc. todas estavam no seu rol de bruxedos, nunca deixava de observar, nesse sentido, tudo o que lhe viesse estivesse à mão, como por exemplo o pesar-se naquelas balanças, que se encontravam das estações de comboios ou do metropolitano. Davam o peso de cada individuo, julgo que impresso no momento, num cartãozinho, rectangular com a efígie de um artista de cinema, em voga, no mesmo aparecia pré impressa uma sina, que mesmo sabendo-se aleatória, lhe merecia um estudo cuidado.
Tudo isto era visto com uma ideia contrária, tal como considerava o negativismo como uma vertente da fragilidade humana.
Todos estes pormenores traziam motivação superior, como se pretendia. Efectivamente os tempos livres eram preenchidos com anotações em fichas e outros impressos, que podiam vir a interessar na conversão de novos segurados.
Havia trabalho em permanência, como visitas aprazadas ou não, em horário pós laboral, inclusivamente em dias de Domingo.
Uma dessas saídas, para vários encontros, deu-se na Amadora e depois em Queluz, sendo regresso a casa feito a pé mais uma vez recordando e vivendo a ainda recente travessia pela Calçada do Monte.
Fora feita a longa viagem, sem custos entre Queluz e Benfica, depois de uma tarde bem preenchida, procurando a situação posicional de alguns arruamentos das duas vizinhas localidades de Lisboa.
O jornal A Capital, talvez positiva e prevista a evolução, deixou a Rua do Século, as zincogravuras para o mesmo passaram executadas em oficinas próprias, mas tinha chegado à facturação um trabalho acrescido, com a designação de Imposto de Transacções.
Na verdade, o então novo I. T. poder ser mencionado pelas letras do princípio, só por si era uma inovação, porque no tempo de Estado Novo, as abreviaturas eram tidas como perigos, dado que podiam muito bem ser iniciais de palavras “subversivas”.
João Moisés ia ficando por dentro do processamento do novo imposto. Na verdade o mesmo parecia uma aterradora nulidade, porque bastava entrar um impresso timbrado da firma e a guia de remessa do material expedido, levava apenas a menção do número atribuído ao contribuinte.
Pressupunha-se que o pagamento seria atribuído à firma que distribuía o produto acabado, mas sempre ficava a impressão de que o número na guia, depois na factura mensal, servia falcatruas.
Desde que o Martinho era o novo caixa, apesar de bom amigo, algo conjugado com os últimos acontecimentos lhe segredava que o Sertório, pelo contrário, não podia ser colega merecedor de confiança.
O desconfortável da situação, em conjunto com a notável irrequietude e desejo de voltar a subir na carreira, uma vez que podia acrescentar ao curriculum a valorização dos conhecimentos no tratamento do novo imposto, levava-o a idealizar novo emprego.
O patrão Francisco Bento, continuava a demonstrar-lhe grande estima, ao ponto de o levar a visitar o que viriam a ser as novas dependências do escritório, no que pensava interessante para o empregado de confiança.
Até gostou, tendo em conta ser o mesmo edifício, a antiga capela das Mercês que o proprietário, talvez a coberto de albergar uma esquadra de polícia, ia fazendo melhoramentos sem o risco de um credenciado arquitecto. Transformando-a na maravilha citadina dos mamarrachos.
Teria entrada na Rua do Século, onde ainda por alguns anos funcionou o grupo que editava o jornal que lhe dera nome.
Mesmo gostando do que lhe era dado ver e ficando eternamente grato ao senhor Bento, pensava consigo não chegar a trabalhar aí, o que aconteceu na realidade.
Iniciou logo em Maio as curtas férias a que tinha direito e foram essas, que lhe deram o ansiado tempo de ponderação e procura de novo trabalho.
Logo no mês seguinte, deixando ao seu sucessor, todos os assuntos na devida ordem, para o que trabalhou até ao último minuto, podendo ficar assim com gratas recordações e dizer adeus à longa Travessa das Mercês e ao mesmo edifício onde existiu a capela que, possivelmente lhe terá dado o nome.
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Daniel Costa

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

PARAÍSO DE BENFICA

Foto de Daniel Cordeiro Costa.
Foto de Daniel Cordeiro Costa.
O PARAÍSO DE BENFICA
Depois de João Moisés encontrar as condições económicas de entrar num clube mais avançado, o dos casados, que desde miúdo pensava ser o paraíso do Planeta Terra, o supremo eterno do mundo, visto que era o início de uma vida comum a dois, que mais tarde seria alargada e a dar-se uma separação só por interferência da irmã morte poderia acontecer.
Para o cumprimento perante Deus e os homens, a famosa igreja das Mercês sob o ministério do coadjutor do velho pároco, o Padre Marques Soares, deu-se a cerimónia religiosa do enlace.
Depois do longo, grandioso e tido como inevitável “buffet”, o casal viu-se, finalmente, a sós pela primeira vez.
Depois do transcendente acontecimento, a morada passou a ser nova, não muito longe do saudoso Café Paraíso de Benfica, talvez o mais antigo do Bairro e o último, do género, da Lisboa antiga.
Era bom presságio, para início de uma nova vida, tanto mais que se estava ali a desenvolver uma outra Lisboa, com um grande aglomerado de casas, tendo como base a Avenida do Uruguai e a então Estrada Poço do Chão, incluindo o que se veio depois a baptizar por Praça Artur Portela.
Acontece que a capital desse tempo, com a sua intrínseca grandeza, era em tudo uma sombra, a ponto de mesmo um faustoso lance matrimonial, não dar direito a mais de oito dias de férias, findas as quais João Moisés compareceu, obviamente, ao dever do serviço, não sem antes lhe vir à lembrança os tempos do Bairro da Graça, Aquela histórica casa onde deixou de viver e conviver, sobretudo do aparelho de telefone que a equipava.
Era composto por um mealheiro onde entrando, sob pressão, uma daquelas moedas de alpaca do valor de cinquenta centavos funcionava.
O sistema tinha a ver com a movimentação da casa e porque a economia do tempo obrigava a que fosse garantido o pagamento por quem utilizasse o serviço. No entanto em Benfica dispunha do seu telefone sem o incómodo do dispositivo.
Acabaram as caminhadas da Graça até ao posto de trabalho. Dali em diante, o paraíso de Benfica tornou-se, à ida para o escritório, ponto de partida para os muitos carros de tracção eléctrica que então serviam a freguesia, em acelerado povoamento. Como se isso não bastasse, relativamente perto desenvolvia-se a Brandoa na clandestinidade, cujos habitantes também ficavam sujeitos aquela estação para alancar o trabalho.
A azáfama de apanhar transportes, por toda a gente, começava logo pelas sete da manhã e as ruas que desembocavam próximo da igreja, onde quase na frente existia a estação e se iniciava a partida transformam-se, em verdadeiros formigueiros humanos.
Não podia dizer-se que faltavam meios, o que havia era já muita gente dependente deles, que dispunham apenas de uma via, a Estrada de Benfica, que começava na Avenida Duque D’Ávila, junto ao Governo Militar de Lisboa, acabando nas Portas, onde se inicia a Avenida Elias Garcia, já fora da cidade.
Começava então de manhã a verdadeira aventura de chegar ao trabalho, à hora nona ou antes, cuja abertura também fazia parte das obrigações de João Moisés.
Logo no primeiro Inverno, por sinal rigoroso, naturalmente por imperativos camarários, ou outros, uma vala foi aberta por toda a Estrada, então era ver carros eléctricos a preencher toda a via, em vários quilómetros de distância até à estação do metropolitano em Sete Rios, onde muitos mudavam de rota, para a baixa da cidade, por meio daquele rápido meio de transporte.
Os transportes eléctricos, uns iam da estação de Benfica à Praça do Chile, para outros só terminava a linha na Praça Duque da Terceira, vulgo Cais do Sodré. Era neste últimos que, diariamente viajava João Moisés, verdadeira aventura!
Embarcava na origem até ao apeadeiro do Príncipe Real, depois descia a pé toda a Rua do Século, onde na última, imediatamente à Esquerda, iniciava o seu dia laboral.
Recordando, em síntese, a comprida e aventurosa viagem diária num daqueles carros movidos a electricidade, por carris. de ferro, convém não deixar em claro a tentativa de reconstituição da sua rota:
- Partia da estação, seguia em linha recta, com volta por uma quinta abandonada, onde se encontra o Centro Comercial Fonte Nova, até Sete Rios, aí fazia a curva á direita, continuando pela Estrada de Benfica, passava ao Instituto de Oncologia em Palhavã, Praça de Espanha, junto aos jardins da Gulbenkian, atravessava a Duque D’Ávila e andava à volta de três partes do edifício do Quartel do Governo Militar de Lisboa, voltando à mesma Avenida, que percorria até Campolide, depois rumava à esquerda, para fazer a Rua descendente até atravessar a Avenida Joaquim António de Águia, dando às Amoreiras, que descia até ao Largo do Rato, onde passava até voltar à Rua da Escola Politécnica.
Finalmente a paragem, a que muito boa gente chamava o Jardim da Patriarcal.
Depois com aparente calma, descia a pé, toda a Rua do Século.
Há!... O trabalho já estava também a desencantar João Moisés, porque entretanto, como tantas visitas, o Sertório acabou por reentrar com a aquiescência dele próprio, visto o rapaz já ter sentido na pele, a situação de despedido do trabalho, depois porque não deixaria de ser bom rapaz e viria a ser bom ajudante. Verificado depois o mau carácter do novo ajudante, além de lhe falar um mínimo de conhecimentos, que deveria ter adquirido durante o tempo que ali trabalhara. Era só jeitoso a criar outras formas de poder esgueirar-se ao serviço que lhe competia.
Apesar de já ter sido despedido compulsivamente, por interferência do Moura Jorge, depressa se conotou com este, contando com a insensata colaboração do cobrador, elemento com muito jeito para intriga.
Tudo programado, baseado no visível derriço da Inglesa, João Moisés depressa se apercebera ser o visado. Com base em denúncias forjadas. Da amizade do chefe de alguns anos, este passara também a tratar com ele apenas os indispensáveis assuntos de trabalho.
Naturalmente, também a mulher da Grã-Bretanha lhe dera a volta à cabeça, pelo que com um despedimento, com o valor da consequente indemnização viria a calhar.
Assim aconteceu! Numa manhã, sem nada fazer prever uma tal iminência, o Moura Jorge deu em querer tirar esforço, dento do próprio escritório sob alguns olhares atónitos, do próprio João Moisés o que este, evidentemente, não consentiu. Dera-se quase simultaneamente a entrada do Guarda-Livros e sem qualquer consulta, sucedeu-se de imediato e desejado despedimento.
Podia ser considerado por justa causa, mas tudo ficou logo facilitado, foi atribuído em jeito de prémio, pelo acto de pura mesquinhez, uma quantia de vente e três mil escudos compensatórios, que à época podia considerar-se quantia elevada.
O gosto pelo trabalho, da parte de João Moisés não se alterou, embora lhe fosse logo atribuída a chefia, com a mesma remuneração, factor de evidente equação, mas de nenhum significado.
Em todo o processo o novo chefe, nunca foi ouvido e considerou ter havido muito de trama, seguida de injustiça. A haver despedimentos, pelo menos três elementos deviam ter entrada no pacote: O Moura Jorge, o cobrador e o novo ajudante.
Alguém não deixou de considerar esses factores, nunca se conformando com eles, além de ter continuado a contar com o reconhecimento inequívoco do gerente principal, de imediato iniciou a tarefa de tentar mudar de entidade patronal, deixar aquele edifício, onde em tempos muito recuados, esteve implantada a Capela das Mercês, e que o seu proprietário, tão mal, o ia transformando aos poucos, sem qualquer conceito de ordem estética.
Teria sido a mesma que dera nome aquele grande arruamento do famoso Bairro Alto, designado por Travessa das Mercês.

Daniel Costa




segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

SANTA ENGRAÇA



Foto de Daniel Cordeiro Costa.
SANTA ENGRÁCIA

O Bairro da Graça, na sua vetustez, pertence á freguesia de Santa Engrácia. Com outros limítrofes, formam um conjunto da Lisboa antiga, digna de ser visitada demoradamente.
No Largo onde se formavam os carros eléctricos, um dava a volta partindo, para o Norte e outro para o Sul ambos, no se vai e vem, em jeito de circunferência por Campo de Ourique. Tinha sempre encontro marcado, em cruzamento, com partida daquele local, passando no Largo do Calhariz, que fica paralelo à Travessa das Mercês.
A caminho do trabalho, João Moisés sempre passava por ali, onde se formavam havia taxativamente muita gente a acotovelar-se, esperando a chegada de um veículo de transporte, depois uma interessante luta para entrar.
Decididamente, após andar cerca de mil e quinhentos metros para chegar aquele ponto, achava mais prático e rápido descer a Calçado do Monte e fazer todo o trajecto locomovendo-se a pé até ao escritório, nos confins do Bairro Alto.
Nesse trajecto atravessava todo o Rossio onde podia ver as letras luminosas do edifício de funcionamento de uma livraria de Diário de Notícias, no mesmo se projectavam essas a dar algumas notícias do dia. Uma espécie de Internet desses tempos. Já ouvira referenciar antes a notável cena.
Estava a morar numa casa onde, com um simples assomar à janela, usufruía a grande luxo de avistar o Tejo, mas a Graça continuou sempre a conter no seu perímetro muitos mais sítios do maior interesse, como o Museu da Água, na Rua do Alviela, à Calçada dos Barbadinhos.
Na freguesia vizinha de S. Vicente de Fora, fica a Igreja de Santa Engrácia do famoso Panteão Nacional. Na altura pelo facto da velha expressão, em certos casos de lentidão dizia-se muito: “É como as obras de Santa Engrácia”!... De facto a sua construção teve início em 1862, no lugar de uma antiga capela com a mesma designação e por vicissitudes várias, só terminou no ano de 1966.
Muito estará por realçar daquele outro centro de Lisboa, como o famoso Largo da Graça, situado numa das colinas da cidade com os seus com os seus naturais miradouros.
Na altura e ainda por muito tempo funcionava ali o grande Quartel da Graça, perto do Miradouro do mesmo nome.
Começa aí a Calçada do Monte, mais propriamente uma rampa que leva à Mouraria, seguindo depois para a Baixa.
Aproximava-se o fim da morada naquela distinta zona, que tem também como vizinhança a velha Alfama, por via de um futuro casamento. Viver a dois, segundo a lei da Santa Madre Igreja e a tradição, era a maneira libertária de se poder viver com uma mulher e gerar filhos, com a aprovação dos deuses.
O frenesim da cartomancia e as pressões tentaram influenciar as escolhas. Jogavam-se boas indicações económicas efectivas ainda, com laços familiares, mas a Rosário tornara-se coisa séria, a levar até ao fim do mundo.
O João Moisés cortara com todas as hipóteses, onde houvesse dúvidas sobre a “honra feminina”, uma condição que lhe era muito cara!... Usava-se!...
Assunto arrumado, o pensamento continuava no trabalho e nas muitas incidências no seio do mesmo, sobretudo no que dizia respeito a gráficas, afinal o mundo que pensava ter merecido conhecer. Parecia estar ali a génese de toda a actividade humana, era no fundo aquele o princípio do desenvolvimento da comunicação de massas, que o homem sempre desejou.
Muitas acções laborais, sem o parecer, mereciam muita atenção de quem alimenta os seus íntimos pensamentos, que a outros podiam parecer inócuos. Pobres deles!... Podia pensar-se, se o tempo não fosse sempre o grande mestre.
Estava-se no tempo do partido único, corporizado na designação de Acção Nacional, donde emanava o Estado Novo, comandado pelo tal “lente”, senhor António de Oliveira Salazar, com olhos e ouvidos a envolver toda a sociedade, como o caso que se passou na Graça. O João Moisés encontrou casualmente um indivíduo que fora seu colega na tropa, o que mereceu a confraternização à roda de uma mesa de Café.
Ao contrário do que era conhecido, numa demonstração provocatória, o antigo colega deu em representar de ébrio para o empregado que servia e sem que nada o fizesse prever, com ameaças de mau gosto, tirou do bolso e mostrou o seu cartão de informador da temível PIDE.
O revelado informador nunca mais foi encontrado, ficou a lição. Naturalmente o que interessava era incutir o medo.
Aconteciam muitos casos a indiciar o objectivo controle da polícia política, como o dos anúncios de jornal a promover o recrutamento de pessoas, que tivessem feito a vida militar, para as várias tarefas nas empresas e sobretudo nas universidades.
Tinha-se iniciado uma forte emigração, onde funcionava muito a clandestinidade, tráfico a que muitos se dedicavam e que conviria ao governo de Salazar. Só alguns iam parar a prisões políticas. Era dado o sinal contrário através de denúncias.
Era neste ambiente que passava uma certa corrupção, sempre em pequena escala. Afinal o chefe da oficina daquela empresa gráfica, além de inegável competência técnica, era altamente especializado em procurar alinhamentos por baixo, para melhor fazer o seu trabalho de controlo, o que lhe dava espaço para o seu “negócio” paralelo interno.
Nem tudo chegava ao filtro investigador de João Moisés, muita acções levadas a efeito, como o afã de angariar trabalhos, nomeadamente de offset, sabendo que a firma não tinha a necessária dimensão para os executar, mas feitos externamente de certo que trariam boas comissões, tanto mais que chamava a si a orientação.
A João Moisés cabia estabelecer todos os contactos e podia apurar, que os desenhadores de fora eram muitas vezes chamados a colaborar. Os clientes ouviam por tradição do grande chefe – “esses senhores debitam alto” – pelo que não sabia o que iria custar cada trabalho de desenho.
Filtrando também por ai, os respectivos artistas tinha de, à partida adicionar o custo de uma comissão destinada ao chefe, mesmo que a obra fosse de pequena dimensão.
Com todas as mais valias proporcionadas, por todos os bónus indevidos, nunca perdia ocasiões de afirmar que a entidade patronal não o remunerava consoante o seu valor técnico, porém a certa altura apresentou a demissão e de imediato foi vê-lo, à partida sem fortuna pessoal, a adquirir a sua própria empresa gráfica.

Daniel Costa

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

ARCO VOLTAICO

Foto de Daniel Cordeiro Costa.

ARCO VOLTAICO

O artigo gramatical zincogravuras, à simplificação de um vasto mundo de linguagem, que veio a tornar-se acessível a João Moisés. Palavras como foto, correspondem a reprodução em zinco de uma fotografia e a zinco se o original for só traço; foto zinco se o mesmo desenho engloba os dois. Termos iniciáticos de um outro mundo, dentro de um universo de uma grande cidade, como Lisboa.
Arco voltaico volta à ribalta, associando-se às novas tecnologias, mas na reprodução gráfica, pelo menos na gravura era indispensável, pois quando “fechado” por uns elementos, designados “carvões”, lançando uma luz muito intensa sobre as películas dos desenhos ou fotografias, acopladas à chapa de zinco, onde pela acção ficavam impressos.
Embora houvesse muitas actividades laborais interessantes, por onde uma mente sempre ávida de sabedoria entrava num meio ideal para o efeito, havia outro mundo, o da actividade particular, que se tornara paralelo.
A vida amorosa tinha de estar sempre em destaque, no entanto naquela casa, no meio de dezenas de pessoas, não existia nenhuma do sexo oposto para alegrar mais a vida, claro que João Moisés não de poder apelidar de gela corações, mas a sua juventude não concebia a ausência de comprometimento com alguma mulher.
Mesmo em casa o amadorismo da cartomancia versaria muito esse tema, que depois acabada por ser aflorado na conversação., quando se procurava saber, em vão, como andavam os amores, com a estimulações destinadas a saber algo mais do pouco que se desvendava.
Estímulos, para quê? – Se os mesmos existiam sempre, a divulgação é que era considerada desnecessária.
Mas era a certa altura de todos os rompimentos. Chegara-se a empregado de escritório, era o acesso a um patamar mais elevado socialmente, isto tinha de pesar muito no capítulo dos namoricos.
Este pensamento inevitavelmente levado à prática deu como resultado, rompimentos e ao derriço com a Rosário.
De muitas policromias se foi construindo o ambiente, até chegar a uma situação em que a desfloração ainda estivesse reservada, o que mesmo nos anos sessenta, para certas idades, acabava sempre por ser tida como problemática. Só a partir daí foram procuradas outras qualidades de interesse.
É facto que atravessava uma idade propícia de pensar em casamento e como empregado, tinha ascendido a uma posição para proceder a uma escolha com um olhar de futuro. O regresso ao fim do dia acabava por ser encarado com certa modéstia, por João Moisés, mesmo não deixando de haver alguma sobranceria. Ganhara ascendente como familiar, entre outros hóspedes que eram menos da casa, uma vez que se revelara pessoa de valia. 
No próprio escritório da Travessa das Mercês, já tinha chegado à consideração de um dos gerentes, Chico Bento que procurava coordenar toda actividade, o outro Robert cuja entrada era sempre tardia, sentando-se de imediato numa banca de trabalho, que tivera o privilégio de escolher, sem se dar por ele, apesar do seu alto e anafado porte, só se deixando notar pela fumarada, saindo do sacramental cachimbo, que sempre usara como imagem de marca.
Um dia João Moisés ao assistir a toda a bem concebida exposição de um novo cliente, fez o seguinte comentário, depois da sua retirada – “hum!... Este não me comprava os frangos”!... O trabalho teve execução, porém o pagamento acabou do esquecimento dos deuses!...
Chico Bento que fixara aquela frase, tique de origem e muito próprio do funcionário, dali em diante, as conversações sobre a acreditação de nova alteração de ficheiro, passaram a ter o protagonismo deste, com “direito” a veredicto final a entrar em conta.
Chegara a um posicionamento tal, para o que não contribuíra, dada a natural modéstia, mas em que muitos eram culpados de erros, em toda a linha por onde tinha passado a obra, sempre acompanhada de boletim especificando a mesma, porém João Moisés granjeara tal ascendente, que nunca podia ter culpas perante o gerente.
Aconteceu um dia ter havido engano em todas as medidas para zincogravuras, vindas da encomenda de um cliente. Um novo produto a lançar no mercado e a ser publicitado por toda a comunicação social. Foi admitido pelo empregado de expediente de escritório, que o erro de medidas tivesse tido origem no boletim de entrada elaborado por ele.
Não se deu novo tsunami em Lisboa, mas ia caindo o resto do Carmo e da Trindade, situados ali perto. Só fulanos de tal e tal podiam arcar com as culpas, pois mesmo que se estivesse passado algo de mal na entrada, eles tinha obrigação de notar o erro, já que desde sempre eram possuidores das medidas da mancha de cada periódico, pelo tamanho do respectivo grupo de colunas apalavradas, a preencher com aquela promoção.
Foram revistados os locais, no escritório, onde havia a possibilidade de haver arquivado algum documento elucidativo, pois ali trabalhava-se com método. O resultado era o esperado, o lapso fora mesmo originado na entrada.
Como não podia ser dito, ficou só a certeza e um interior acto de contrição a servir para evitar novos deslizes.
Acontece que o facto originou grande prejuízo e algum atraso. Tudo imprevistos, originando uma reunião entre gerentes das duas empresas, onde tudo foi sanado com a divisão de perdas.
Depois disso, o gerente apresentou um velho amigo e cliente, este trazia apenas um pequeno original, destinado a mandar executar uma zincogravura a imprimir numa ampola para medicamento: Apesar da recomendação de ser único e muito importante e das inúmeras e constantes recomendações de Chico Bento: 
- “Um original destinado a executar uma gravação tem de ser sempre tratado como peça única”, o mesmo foi bem guardado, mas esquecido.
Só num sonho mais tarde, se fez luz sobre aquele assunto. Um lance, podia dizer-se providencial, por isso mesmo a causar natural estranheza!...
Havia que tomar medidas, nada melhor do que pôr o gerente a par da situação, até porque tinha sido ele mesmo a recomendar o subordinado.
A conversa tida, não obstante, foi cordial. Estava resolvido, tudo se passar perante o cliente, como se o amigo de nada pudesse saber.
Ao telefone, o tratamento do assunto também acabou por correr bem, afinal arranjava-se um outro desenho, entrando o trabalho no circuito normal.
Este gerente, tinha de ser considerado um amigo, apesar do chefe de escritório só se lhe referir como “o carroceiro”, geria a empresa com uma maneira peculiar de tratar bem todos os assuntos respeitantes ao funcionamento da mesma.
Um dia apareceram uns senhores, iam recomeçar um Jornal, que tinha já circulado com a denominação de “A CAPITAL”, um deles era Maurício de Oliveira, que dirigia a “Revista da Marinha”, que sendo impressa em tipografia, como a maior parte, senão todos os periódicos da época, era indefectível cliente daquela casa com entrada pela Travessa das Mercês, o João Moisés foi chamado à reunião, que acabou como se ali inesperadamente, tivesse chegado a sorte grande.
“A CAPITAL” ia renascer na Rua do Século, com sede na frente do velho matutino. Ficava quase imediatamente ao virar da esquina, sendo impresso nas oficinas do saudoso “SÉCULO”.
Por ser vespertino e de formato diferente, a nova unidade de comunicação da tarde, não fora considerada concorrente.
Todas as zincogravuras eram executadas sob as ordens do apodado “carroceiro”, para o que havia de estar operacional, nem que tivesse que ser as vinte quatro horas do dia, se necessário, ficando sempre a funcionar como garante o responsável pelas entradas e saídas dos trabalhos.
Isto originava muitas horas extras, por vezes não sobrava mais do que quinze minutos para a refeição. O mesmo se passava depois do horário convencional, a saída do escritório só acontecia depois de um telefonema para o Jornal, pois este pelo caudal de trabalho tornara-se uma parte relevante da laboração.
Há a notar a curiosidade do Bento, que não tinha hábitos de leitura, a partir de então, não desaproveitava qualquer oportunidade de avançar ser “A CAPITAL” o melhor diário em circulação.
No meio dos operários, havia um trabalhador, ajudante embora não sendo muito novo, na secção de montagem das gravuras, que era filiado na “Legião Portuguesa”, uma unidade do “Estado Novo”.
Era assim; aderiam muitos dos que ficavam livres da tropa, como era o caso, para ganhar direito à isenção de pagamento da taxa militar anual, existente na época.
De quando em vez, lá vinha o chamamento para estar presente numa parada. O homem apareceu algumas vezes vestido a rigor, com o seu fardamento castanho da praxe às apresentações periódicas na unidade, para o que a empresa era obrigada a dispensá-lo.
Esse rapaz não passava de ajudante mas era sociável, a tal ponto que por vezes aguentava ditos sobre a filiação e o garbo que a farda lhe conferia. 
A sua índole de vive e deixa viver, dava para servir em muitas circunstâncias, apesar de haver um funcionário de serviços externos para recolha de obras e posteriores entregas, surgiam telefonemas de solicitações de imediatismo e o patrão Bento logo se encarregava de chamar aquele empregado.
Se fosse de tarde, era quase certo o mesmo tirar o tempo necessário, para passar num daqueles cinemas rascas de sessão contínua, normalmente o Olímpia da baixa de Lisboa, onde havia vários e assistir a uma exibição.
Depois, muito naturalmente, dando conta no escritório do trabalho que fora executar, entrava na secção na hora de fechar.
Daniel Costa

domingo, 7 de janeiro de 2018

O MUNDO DAS FOTOGRAVURAS



Foto de Daniel Cordeiro Costa.

O MUNDO DAS FOTOGRAVURAS

Foi sem qualquer preparação técnica, que João Moisés realizara o sonho de se tornar empregado de escritório.
A certa altura deu consigo a controlar todo o expediente de entrada de originais, para a execução de zincogravuras e da saída das mesmas, depois de prontas as obras.
Uma ocupação interessantíssima, que o conduziria a conhecer todo o maravilhoso Mundo das Artes Gráficas, incluindo o dos próprios jornais, à altura a indústria dominante de todo o Bairro Alto.
Naquele meio estavam a passar-se lances interessantes, pelo menos para quem gostasse de ocorrências consideradas menos vulgares, dignas de serem seguidas com atenção, por ser ter dado ainda havia pouco o início de segunda metade do século XX, com um país real considerado de analfabetismo confrangedor, muito notado até no meio de oficinas onde se dava o florescimento da cultura.
Ao tempo era nas gravuras que podiam começar os livros, assim como iniciativas conducentes à criação de muitas outras obras de impressão, como as grandes campanhas publicitárias criadas em Agências próprias, que depois as faziam distribuir por jornais e revistas, para atribuírem ao produto a necessária visibilidade.
Isso fazia parte, regra geral, da grande azáfama desenvolvida, o interessante eram as peripécias ocasionadas no dia a dia.
Começo, pelo chefe de escritório, tudo leva a crer que sofreria de uma doença muito em voga, a esquizofrenia, por outro lado teria tendência a ser delator, sobretudo de chefes a superintender nas oficinas, portando técnicos com alguma classificação.
Algumas vezes mesmo sendo admoestado, por sócios gerentes, levou bastante tempo a insistir, até que aprendeu a lição, não era que fugisse à verdade, mas devia reparar que estava a pôr em casa a própria administração, a quem cabia zelar pela boa harmonia de toda a produção.
A personagem em questão, dava pelo nome de Moura Jorge e a sua malévola estrutura mental, quiçá o seu negativismo já tinha dado origem a alguns pedidos de demissão de alguém, a quem bastava o trabalho para lutar. Na primeira oportunidade apresentavam a renúncia, porque não estavam aturar maus fluidos.
Aconteceu que João Moisés pela sua docilidade, podia dizer mesmo jeito para as relações humanas, passou a ser tratado pelo chefe com grande deferência.
Muitas vezes desceram ambos o Chiado e havia dias em que Moura Jorge, passava o caminho apenas a maquinar o desdobramento dos números do totobola para jogar com acerto, sendo o fim em vista a riqueza que o levaria a poder abandonar aquele emprego considerado execrável, pelo facto de ter ficado excluído de dar palpites, que refutava de inerentes à sua condição na chefia do escritório.
No entanto, dava para aprender muito com ele, pela negativa claro! Magicava grandes evoluções, uma altura pensou em desenvolver o seu francês e nada melhor que oferecer morada a uma professora da língua, em troca de lições pessoais daquele idioma.
Para uma dessas sessões convidou o novo subordinado. A docente depressa opinou que aquele conhecia mais do idioma que o aluno efectivo.
As relações, como seria fácil de prever, não eram muito católicas, pela razão simples de várias ausências da mestra, que parecia mais meretriz do que professora de francês.
Em resultado, o acordo foi efémero.
O totobola continuou semanalmente, lá vinha o matraquear habitual, a tripla estava sempre certa, o pior eram os símbolos duplos, que falavam muito, pelo que a independência económica nunca mais chegou.
Um dia deu entrada ao serviço daquele escritório um novo funcionário, como veio através da velha “cunha”, nada mais do que da herdeira de um sócio maioritário da casa, o rapaz de nome Martinho exibia uma péssima caligrafia, além das poucas qualificações para o desempenho do trabalho.
Mesmo assim o chefe nunca o hostilizou, sabia que isso seria o tratamento do seu fim, no entanto a confiança e a amizade dedicada a João Moisés, leva-o a comentar: Não é ainda este que me virá substituir!...
Apesar disso, de seguida demonstrou o talento do poder de negativismo humano, nem conjecturou o facto de nos cemitérios dar entrada diariamente cadáveres de insubstituíveis!... 
Programou férias, comentando várias vezes para o colega de confiança, ser a maneira de repararem no vazio que constituiria a sua falta.
O programa tinha, por força de ser mau: Houve a necessária inter ajuda, como é habitual nestes casos e a gerência nem terá notado a sua falta, que não fez mais forçar a inevitável queda.
Queda que já era previsível, tanto mais que o sistema neurológico o levava a consultar periodicamente um médico do foro.
Não obstante, iniciara correspondência com uma Inglesa, com o objectivo de desenvolver o idioma. A súbdita da Rainha Isabel, sendo viúva de idade relativamente mais avançada e como estava descomprometida, depressa programou férias para Lisboa.
Logicamente foi o correspondente na capital de Portugal que tratou do aluguer da casa na cidade, onde havia de passar a seroar, enganando a própria esposa de que já tinha um filhote.
Entrou pois num namoro, suposto só ser conhecido em pormenor por João Moisés, o único colega confidente e a ter o privilégio de visitar a casa durante as férias, nunca falou a ninguém sobre o assunto, porém deu-se o caso de querendo fazer o papel de bom cicerone, levava a mulher até ao Largo de Camões onde, na hora do almoço, passavam sentados e enlevados, como dois adolescentes.
Sendo perto do local de trabalho, era uma evidente exposição da sua surpreendente mancebia, uma vez que se postavam muito próximo da Travessa das Mercês.
Logicamente que para ali se viravam muitos olhares dos passantes, alguns trabalhadores da empresa vindos da principal refeição, com espanto podiam observar o quadro.
Lisboa sempre albergou casos muito interessantes, embora haja a pretensão de divulgar alguns, o facto é que, quem sabe é sempre tudo é toda a humanidade, como diria um habitual cliente daquela verdadeira fábrica de zincogravuras, para todo o tipo de impressão, o dorminhoco Rocha de Oliveira, detentor já de respeitosa idade. 
Sendo um típico alfacinha, enquanto esperava pelo acabamento da encomenda, o que acontecia amiudadas vezes, deixava os seus conselhos. 
Depois, sentado no banco habitual, batia uma soneca!...

Daniel Costa

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

TRAVESSA DAS MERCÊS

Foto de Daniel Cordeiro Costa.

A TRAVESSA DAS MERCÊS

O aspecto de deixar a subida diária da Avenida da Liberdade, não significava melhoria no esforço quotidiano de João Moisés, ele era mesmo indomável a fazer grandes percursos a pé, mas a sua existência citadina melhorara a olhas vistos.
Saíra de um emprego, menos conceituado, de madrugada e era o primeiro a perfilar-se à entrada do escritório, onde ia principiar ocupação de outro relevo. Começava de novo do zero, embora tivesse andado a preparar-se, mental e intelectualmente, para desempenhar tarefa, de certo modo, mais elevada.
Tudo lhe parecia adequado, a empresa era de razoável dimensão, a perfeição nunca chegando a existir, tem de ser sempre a procurada por mentes irrequietas; é assim que deve ser encarado o mundo, onde se encontram figurões a tentar que o alinhamento se faça sempre por baixo, afim de tirarem partido das fraquezas.
Nunca havia desânimos para João Moisés, mas começou por sentir a insegurança de, nunca ninguém o ter posto ao corrente do trabalho a executar, porém em breve entendeu o que dele se esperava e assim deu início ao que lhe pareceu ser necessário fazer, para atingir o tal paraíso que encerrava a cidade de Lisboa.
Devido a uma questão de proximidade, relativamente ao local onde morava, já conhecia o arruamento chamado Paraíso, o tal que nunca deixou de procurar, mas o escritório de apoio à indústria gráfica com sede últimos números da grande Travessa, com grandeza mais própria para ser denominada Rua, estava longe de constituir esse espaço sideral.
Agora o Chiado era a grande encosta que, diariamente, acrescentara por duas vezes ao percurso e foi nesse, que um dia na volta atirou uma moeda ao ar. 
Como a mesma se comportasse assim decidiria, se sim ou não, a sua vida iria mudar de novo. 
Porque o diabo da peça numismática caíra com a face que previa alteração, afinal a pretendia, isto porque embora se passasse pela Travessa dos Fieis de Deus, para chegar ao escritório, o trabalho que se desejava harmonioso, para ser bem compreendido e depois frutificar, tornara-se um verdadeiro Inferno.
No dia seguinte, o João Moisés tal como indicou a face da moeda, foi ao “Diário de Notícias” e lá encontrou um anúncio a pedir empregado de escritório.
Respondeu e depois do horário laboral, com vários testes, que incluíram uma carta em francês, foi imediatamente admitido, ficando de apresentar no próximo dia o pedido de demissão, para passar à secretária do novo escritório de uma empresa de aprestos marítimos, ao Cais do Sodré.
Vertical, como prendia ser, acabou por logo no dia seguinte, via telefone apresentar escusa.
Passava-se o interessante, na Travessa das Mercês, por já ter dado nas vistas, então aquela renúncia caíra como uma bomba. 
Na tentativa de evitar a dissidência, houve reuniões ao mais alto nível, até de sócios, que João Moisés nunca chegou a conhecer pessoalmente.
Foi o douto Guarda-Livros, sim, porque nessa época nenhuma empresa funcionava sem esse alto quadro técnico, a encarregar-se de resolver a situação, em representação de todos os associados da empresa.
Embora já tivesse na mente o porquê, era patente, atirou uma pergunta a apontar, propositadamente, em sentido contrário, porém não estava em frente de um delator e recebeu como resposta um sorriso e a frase: Com esse até aprendi muito porque querendo mostrar os seus conhecimentos, em vez de levar a correcções directas, comentava os normais eros com: “Afinal julgava que era de certa maneira, mas estava enganado”!,,, Referia-se a ordens escritas, recebidas do escritório, num boletim de trabalho.
O refutado técnico deu-se por satisfeito, ficou com certezas.
De pronto deu mostras de ter resolvido o problema, que para ele se resumia a uma subida de mensalidade e atirou:
- Só dizes quanto queres ganhar mais por mês. Deixou assim o interlocutor sem imediata reacção, este ponderou que afinal a questão do trabalho lhe agradava, achava malévolas as interferências a degradar o ambiente.
Ficando certo, que estava a dialogar com quem tinha interesse em resolver a questão, pediu apenas um modesto aumento.
Pareceu tudo a contento, para o que terão contribuído todos os Fiéis de Deus, que davam nome à Travessa, onde se passou todo o diálogo.
A empresa não sofreu o revés de perder o servidor e este pareceu sentir-se mais seguro, porque aconteceu realmente deixar de ser, como que humilhado pelo chefe laboral, a personagem, que por conveniência pessoal, alimentava a confusão nos serviços de expediente, com a finalidade de alinhamento por baixo,
Tudo ficou realmente melhor, a muita labuta diária não assustava o novo funcionário. Trocava no entanto a possibilidade de continuar a frequentar aulas de liceu, pela mais valia remuneratória e das próprias horas extraordinárias, pagas a dezoito escudos e setenta centavos cada, que ficara com a autonomia de fazer, quando achasse necessário.
Como se isso não bastasse, o próprio chefe oficial, num determinado Sábado, à tardinha, fez-se encontrado e levou o novo trabalhador, do expediente de escritório. até à Cervejaria Trindade onde, entre uma amena cavaqueira, mandou encher uma mesa de marisco com umas imperiais, para que não ficassem dúvidas, nas boas relações ora encetadas entre ambos.
João Moisés também tinha tido em conta, a óptima colocação para investigar casos interessantes, porque afinal a obsessão por essa faceta, transversal a grande parte da sociedade, nunca podia ser abandonada.
No fundo, tinha sido despoletado um factor de agrado em toda a linha.
O lance, sem qualquer programação, vistas as coisas pelo lado positivo, mostrava-se deveras promissor e as diárias caminhadas, em duplicado, a pé do Bairro Alto até ao da Graça, continuaram na mesma, mas a serem encaradas com a típica alegria de viver, do homem que estava a gostar muito de palmilhar a Rua Garrett, na altura fervilhante de transeuntes, a proporcionarem casuais e agradáveis encontrões.
Era o saudoso Chiado da época, onde todos os dias à tarde se podia presenciar uma mostra, em passeio, da beleza feminina de Lisboa. Ainda funcionava o famoso café “Os Irmãos Unidos”, que passando ao rol do esquecimento, embora mantivesse exposta a famosa tela do poeta Fernando Pessoa, saída das mãos do memorável mestre Almada Negreiros.
As refeições eram, invariavelmente, tomadas em casa, após o que seguiam algumas leituras depois do jantar.
Por não haver em casa ainda aparelho de televisão, quando estava anunciado um programa de agrado, era dada uma saltada a um estabelecimento de café, para assistir à transmissão.
De regresso, muitas vezes, lá estava montada uma sessão amadora de leitura de cartas de jogar.
Vá lá saber-se a que existências eram dedicadas!... Talvez tivessem a ver com certa pessoa, suposto hóspede, que á vista era tratado como tal, mas era um privilegiado comensal.
Sabia-se que dormia com a dona da casa, mas tendo o seu dia de folga às quartas-feiras, passava-as com almoços e em de sessões de cinema, com uma elegante e antiga cliente do atelier de alta-costura da anfitriã.
Mesmo com muitas zangas, nesses dias, a vida continuava igual.
Ainda não chegara a liberalização do sexo, era assim que se procuravam manter as aparências em Lisboa.

Daniel Costa

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

PARQUE MAYER

Foto de Daniel Cordeiro Costa.
PARQUE MAYER

Depois foi destinado pela firma, a trabalhar na Avenida da Liberdade junto ao importante Café Lisboa, implantado num prédio que fazia esquina, com o beco a dar para o Parque Mayer. 
Naquela década de sessenta do século XX, era onde se processava toda a vida nocturna lisboeta, tanto mais, que as mais importantes casas da vida da noite também marcavam a sua presença a sua presença, quase em exclusivo, nas proximidades. Ao tempo, o mais famoso seria o Fontória, mas havia outros como o Maxime, o Passa Poga, assim como a casa de fados Márcia Condessa.
Sem razão para nostalgias, porque se sabia que a sociedade estava já em mutação e a energia a ser produzida com essa lenta mas verdadeira revolução, haveria de aniquilar tudo o que ia construindo.
Quem sabia aproveitar as oportunidades da mesma, depressa partiria para outra. Caso contrário ficaria banalizado e podia mesmo fenecer, o talento e a capacidade empreendedora dos que procuravam estar em destaque no seio de novos impulsos.
Faziam ainda fervilhar, na noite o Café Lisboa, duas tabacarias no mesmo prédio, uma pertencente à mesma empresa da Ginjinha Avenida, a outra integrada no próprio Café, o Bar Cantinho dos Artistas, sendo parte do Parque, mas com a entrada por fora deste, a Cervejaria Ribadouro, outro requinte nocturno, em actividade pela noite dentro, ali numa esquina a dar para a Rua do Salitre.
Foi destinado a servir naquele bar de Ginjinha pequeno mas conotado como um santuário por João Moisés, pois achava-o o máximo para o que pretendia. Ao iniciar o dia de trabalho, ocupava-se de tudo o que havia a fazer normalmente, a seguir dispunha numa gaveta o que tinha a decorar, a fim de ter tudo na mente para as aulas de liceu destinadas à manhã seguinte, isto em virtude de por aqueles sítios, a clientela ser rara a tal hora.
Depois do jantar e de, a intervalos de um dia, frequentar aulas de Inglês, chegava o verdadeiro serviço de atendimento e consequentemente o muito a observar.
Algumas vezes passavam fugazmente artistas de palco conhecidos, como o Tristão da Silva ou António Mourão ou outros ainda no início de uma carreira de que se falava e que não chegaria a frutificar.
Um dia apareceu o Francisco José, já célebre a tal ponto que, vindo de actuar no Brasil, no fim de um concerto, como se diria hoje, em directo na Radiotelevisão, se surpresa desatou a reivindicar dos baixos “cachets” pagos a artistas nacionais em relação a estrangeiros.
Todas as incidências do transcendente acto foram contadas ao vivo, para uma pequena mas interessada plateia, ali junta ao acaso, em jeito de reunião.
Do que fora “escândalo”, ali tratado parecia de efeito contrário, o artista à saída dos estúdios da Televisão, encontrou já vários elementos da PIDE, que o levaram de imediato para interrogatório policial, onde mostrou logo, que o que ia ser pago seria destinado na totalidade, a uma instituição de caridade, portanto até se podia dar ao luxo de fazer um acto de justiça, vedado a artistas sem a sua cotação.
Foi a última actuação na Televisão Portuguesa, de microfone aberto em directo, para evitar tentações futuras, como aquela do inimitável cantor romântico.
Durante a tarde, mesmo assim, apareciam por ali clientes de rosto familiar, que se tornavam previsíveis quanto a preferências, como o senhor Garcia, dono do Hotel Vitória, trabalhadores locais com as mais variadas ocupações e outros que diariamente passavam, além de forasteiros ocasionais.
Pela noite, era interessante o desfile de muitos trabalhadores do Parque Mayer, como os celebrados cenógrafos Pinto de Campos e Mário Alberto, que eram habituais. Também os empregados de mesa do famoso Café Lisboa, aproveitavam tempos menos preenchidos, para uma bebida, invariavelmente uma ginja com ou sem elas.
Servia-se um “cokteil”. Dito especialidade da casa e apareciam casais, relativamente novos, socialmente avançados na época. Os homens, num sussurro solicitavam o néctar, depois enquanto decorria o preparado voltavam a segredá-lo às mulheres, que pelo menos fingiam achar muita piada
Era o então celebrado “meninete”, uma palavra imprópria para ser pronunciada em público, demais na presença de senhoras!...
Faria já parte, como actualmente da linguagem de alcova.
O Parque com os seus teatros de Revista á Portuguesa, os restaurantes e o majestoso Café Lisboa subjacente eram, naqueles anos sessenta, como um eixo dum espaço onde começavam aqueles que faziam da noite o modo de se divertir e não só, porque também elementos da PIDE sempre de olhos abertos e ouvidos à escuta, ali iniciavam o trabalho. Alguns eram tão habituais que conseguiam tornar conhecido o seu modo de vida, outros menos vistos entravam num tipo de provocação, fingindo-se ébrios, tentando ouvir algo que os encaminhasse a iniciar investigações.
Estávamos em plena guerra de África, a viver uma República, apelidava-se de Estado Novo, tendo como Presidente Américo Tomás e Presidente do então chamado Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar que, por força, tinham de estar sempre representados e nada melhor do que ter alguém, com ferocidade suficiente em todos os lugares onde houvesse portugueses.
Daquela esquerda da Avenida da Liberdade, perto de grande Estátua aos Combatentes da Primeira Grande Guerra Mundial, podiam sair textos, que a dona Censura podia deixar passar, interpretados pelos elencos teatrais das Revistas, podiam fazer um explosivo a precisar de uma vigilância imbatível e constante.
Quem passava, de vez em quando, era um engraxador, como tantos que actuavam sobretudo na baixa de Lisboa, tinha sido pugilista de mérito, Belarmino Fragoso.
Já exibido o documentário, que já tinha protagonizado simplesmente designado por Belarmino, realizado por Fernando Lopes, baseava-se precisamente no desporto que o mesmo praticara.
Conheceu algum êxito, se considerarmos os poucos meios e o espaço cinematográfico nacional. 
Os comentários que passavam eram de que o realizador tinha ganho bom dinheiro, enquanto o artista principal nunca passou de uma pobreza envergonhada.
Podendo não ser acertados, estes não deixavam de ser atirados, mesmo nas barbas de agentes da polícia política, já que em nada beliscavam o regime vigente.
Entre os vários acontecimentos, que se podiam observar com faro de investigador, João Moisés reteve o de um casal de Ingleses. Estariam instalados num hotel da vizinhança.
De entre os prazeres proporcionados por uns dias de férias na capital europeia de Portugal, à noite contava a degustação de um saboroso licor, junto ao Parque de todos os sonhos.
Fazendo-se entender somente na língua de William Saskepeare, o homem travara certo entendimento com a, senhora engraçada e de fácil trato obviamente, sem que a simplicidade escondesse qualquer intenção, porém as boas gratificações não se faziam esperar.
Passaram uns meses, a mesma senhora entrava com outro acompanhante, mesmo não sendo necessário qualquer aviso, já a dama estava, por detrás a exibir o sinal para não haver palavras, sobre o passado.
A partir daí o novo par constituído apareceu por mais dias e a senhora voltou ao fraternal bate papo habitual.
Isto foi sempre lembrado, porque aquele tipo se “serviço” ainda estava longe de ser vulgar, mesmo na grande Lisboa de sessenta do século passado.
Um dia à tarde apareceu outro tipo de cliente, nunca tinha sido visto por ali, vestido a rigor, de facto a sua aparência mais a de provinciano tipo “Chico esperto”, empunhando a sua bebida, solicitou o empréstimo de certa quantia, em seu abono, dizia-se oficial do exército, prestes a ter um encontro com uma miúda e faltava-lhe dinheiro.
Obviamente obteve uma negativa, alegadamente por o João Moisés não possuir a quantia. Sugeriu o impensável:
- Retirar a importância da caixa registadora!...
Para a sua propensão a investigar certos factos gregários, todas as noite, depois das duas da madrugada, durante meses, descia a Avenida da Liberdade, onde tomava o rumo do Largo Martim Moniz a caminho do bairro da Graça, localização da sua morada.
Devido ao avanço nocturno apenas encontrava algumas meretrizes, em fim de trabalho nos Restauradores, que procuravam a oportunidade de insinuar-se, Nunca se meteram, deviam conhecer o habitual transeunte, que não era parte dos ocasionais clientes.
Embora o João viesse amando a doce existência naquela ocupação, onde era tratado como achava merecer, tendo adquirido mais formação académica, com ambições mais elevadas, em breve encetou novos voos.
Depois foi destinado pela firma, a trabalhar na Avenida da Liberdade junto ao importante Café Lisboa, implantado num prédio que fazia esquina, com o beco a dar para o Parque Mayer.
Naquela década de sessenta do século XX, era onde se processava toda a vida nocturna lisboeta, tanto mais, que as mais importantes casas da vida da noite também marcavam a sua presença a sua presença, quase em exclusivo, nas proximidades. Ao tempo, o mais famoso seria o Fontória, mas havia outros como o Maxime, o Passa Poga., assim como a casa de fados Márcia Condessa.
Sem razão para nostalgias, porque se sabia que a sociedade estava já em mutação e a energia a ser produzida com essa lenta mas verdadeira revolução, haveria de aniquilar tudo o que ia construindo.
Quem sabia aproveitar as oportunidades da mesma, depressa partiria para outra. Caso contrário ficaria banalizado e podia mesmo fenecer, o talento e a capacidade empreendedora dos que procuravam estar em destaque no seio de novos impulsos.
Faziam ainda fervilhar, na noite o Café Lisboa, duas tabacarias no mesmo prédio, uma pertencente à mesma empresa da Ginjinha Avenida, a outra integrada no próprio Café, o Bar Cantinho dos Artistas, sendo parte do Parque, mas com a entrada por fora deste, a Cervejaria Ribadouro, outro requinte nocturno, em actividade pela noite dentro, ali numa esquina a dar para a Rua do Salitre.
Foi destinado a servir naquele bar de Ginjinha pequeno mas conotado como um santuário por João Moisés, pois achava-o o máximo para o que pretendia. Ao iniciar o dia de trabalho, ocupava-se de tudo o que havia a fazer normalmente, a seguir dispunha numa gaveta o que tinha a decorar, a fim de ter tudo na mente para as aulas de liceu destinadas à manhã seguinte, isto em virtude de por aqueles sítios, a clientela ser rara a tal hora.
Depois do jantar e de, a intervalos de um dia, frequentar aulas de Inglês, chegava o verdadeiro serviço de atendimento e consequentemente o muito a observar.
Algumas vezes passavam fugazmente artistas de palco conhecidos, como o Tritão da Silva ou António Mourão ou outros ainda no início de uma carreira de que falava e que não chegaria a frutificar.
Um dia apareceu o Francisco José, já célebre a tal ponto que, vindo de actuar no Brasil, no fim de um concerto, como se diria hoje, em directo na Radiotelevisão, se surpresa desatou a reivindicar dos baixos “cachets” pagos a artistas nacionais em relação a estrangeiros.
Todas as incidências do transcendente acto foram contadas ao vivo, para uma pequena mas interessada plateia, ali junta ao acaso, em jeito de reunião.
Do que fora “escândalo”, ali tratado parecia de efeito contrário, o artista à saída dos estúdios da Televisão, encontrou já vário elementos da PIDE, que o levaram de imediato para interrogatório policial, onde mostro logo que o que ia ser pago seria destinado na totalidade, a uma instituição de caridade, portanto até se podia dar ao luxo de fazer um acto de justiça, vedado a artistas sem a sua cotação.
Foi a última actuação na Televisão Portuguesa, de microfone aberto em directo, para evitar tentações futuras, como aquela do inimitável cantor romântico.
Durante a tarde, mesmo assim, apareciam por ali clientes de rosto familiar, que se tornavam previsíveis quanto a preferências, como o senhor Garcia, do Hotel Vitória, trabalhadores locais com as mais variadas ocupações e outros que diariamente passavam, além de forasteiros ocasionais.
Pela noite, era interessante o desfile de muitos trabalhadores do Parque Mayer, como os celebrados cenógrafos Pinto de Campos e Mário Alberto, que eram habituais. Também os empregados de mesa do famoso Café Lisboa, aproveitavam tempos menos preenchidos, para uma bebida, invariavelmente uma ginja com ou sem elas.
Servia-se um “cokteil”. Dito especialidade da casa e apareciam casais, relativamente novos, socialmente avançados na época. Os homens, num sussurro solicitavam o néctar, depois enquanto decorria o preparado voltavam a segredá-lo às mulheres, que pelo menos fingiam achar muita piada
Era então celebrado “meninete”, uma palavra imprópria para ser pronunciada em público, demais na presença de senhoras!...
Faria já parte como actualmente d linguagem de alcova.
O Parque com os seus teatros de Revista á Portuguesa, os restaurantes e o majestoso Café Lisboa subjacente eram, naqueles anos sessenta, como um eixo dum espaço onde começavam aqueles que faziam da noite o modo de se divertir e não só, porque também elementos da PIDE sempre de olhos abertos e ouvidos à escuta, ali iniciavam o trabalho. Alguns eram tão habituais que conseguiam tornar conhecido o seu modo de vida, outros menos vistos entravam num tipo de provocação, fingindo-se ébrios, tentando ouvir algo que os encaminhasse a iniciar investigações.
Estávamos em plena guerra de África, a viver uma República, apelidava-se de Estado Novo, tendo como Presidente Américo Tomás e Presidente do então chamado Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar que, por força, tinham de estar sempre representados e nada melhor do que ter alguém, com ferocidade suficiente em todos os lugares onde houvesse portugueses.
Daquela esquerda da Avenida da Liberdade, perto de grande Estátua aos Combatentes da Primeira Grande Guerra Mundial, podiam sair textos, que a dona Censura podia deixar passar, interpretados pelos elencos teatrais das Revistas, podiam fazer um explosivo a precisar de uma vigilância imbatível e constante.
Que passava de vez em quando era um engraxador, como tantos que actuavam sobretudo na baixa de Lisboa, tinha sido pugilista de mérito, Belarmino Fragoso.
Já exibido o comentário, que já tinha protagonizado simplesmente designado por Belarmino, realizado por Fernando Lopes, baseava-se precisamente no desporto que o mesmo praticara.
Conheceu algum êxito, se considerarmos os poucos meios e o espaço cinematográfico nacional. 
OS comentários que passavam eram de que o realizador tinha ganho bom dinheiro, enquanto o artista principal nunca passou de uma pobreza envergonhada.
Podendo não ser acertados, estes não deixavam de ser atirados, mesmo nas barbas de agentes da polícia política, já que em nada beliscavam o regime vigente.
Entre os vários acontecimentos, que se podiam observar com faro de investigador, João Moisés reteve o de um casal de Ingleses. Estariam instalados num hotel da vizinhança.
De entre os prazeres proporcionados por uns dias de férias na capital europeia de Portugal, à noite contava a degustação de um saboroso licor, junto ao Parque de todos os sonhos.
Fazendo-se entender somente na língua de William Saskepeare, o homem travava certo entendimento com a, senhora engraçada e de fácil trato obviamente, sem que a simplicidade escondesse qualquer intenção, porém as boas gratificaç~es não se faziam esperar.
Passaram uns meses, a mesma senhora entrava com outro acompanhante, mesmo não sendo necessário qualquer aviso, já a dama estava, por detrás a exibir o sinal para não haver palavras, sobre o passado.
A partir daí o novo par constituído apareceu por mais dias e a senhora voltou ao fraternal bate papo habitual.
Isto foi sempre lembrado, porque aquele tipo se “serviço” ainda estava longe de ser vulgar, mesmo na grande Lisboa de sessenta do século passado.
Um dia à tarde apareceu outro tipo de cliente, nunca tinha sido visto por ali, vestido a rigor, de facto a sua aparência mais a de provinciano tipo “Chico esperto”, empunhando a sua bebida, solicitou o empréstimo de certa quantia em seu abono, dizia-se oficial do exército, prestes a ter um encontro com uma miúda e faltava-lhe dinheiro.
Obviamente obteve uma negativa, alegadamente por o João Moisés não possuir a quantia. Sugeriu o impensável:
- Retirar a importância da caixa registadora!...
Para a sua propensão a investigar certos factos gregários, todas as noite, depois das duas da madrugada, durante meses, descia a Avenida da Liberdade, onde tomava o rumo do Largo Martim Moniz a caminho do bairro da Graça, localização da sua morada.
Devido ao avanço nocturno apenas encontrava algumas meretrizes, em fim de trabalho nos Restauradores, que procuravam a oportunidade de insinuar-se, Nunca se meteram, deviam conhecer o habitual transeunte, que não era parte dos ocasionais clientes.
Embora o João viesse amando a doce existência naquela ocupação, onde era tratado como achava merecer, tendo adquirido mais formação académica, com ambições mais elevadas, em breve encetou novos voos.

Daniel Costa