quarta-feira, 29 de setembro de 2010

POEMAS UM UM SÓ


DIRIVETE

Sempre adorei o mar
Dirivete também
Na infância nele ia pescar
Polvos navalheiras, até cabozes
De que a mãe cozinhava bons manjares
Degustavam-se como nozes
No Cabo Carvoeiro no tempo invernoso
O bater das ondas, o mar em fúria
Era um bonito espectáculo, um rugir alteroso
Na pesca sempre sonhei com uma sereia
Na prainha que para mim olhasse como rainha
Como Dirivete em Braço Norte se estende na areia
Em Braço Norte, Brasil, Santa Catarina
A educadora, a estimulante senhora
A usar o optimismo como se fosse menina
Face bonita, mente bela
Uma mulher, uma mãe interessante
Prática e singela
Que se recreia em Braço Norte
Sítio de mar e praia
Dirivete ali assenta a sua beleza, o seu porte
A sua mente nunca está triste
Na praia, há os raios solares
A esperança e a suavidade existem, ou existe?
E a bela Derivete ali se refugia
Com o livre pensamento nos seus
No seu sentimento humano de pedagogia

Daniel Costa

terça-feira, 28 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


QUINTAL DAS ACÁCIAS

Longe o matagal
Havia duas avantajadas acácias
Estavam mesmo ali no quintal
Por miríades de flores
A inveja terá sido o mal
Cortou-as o machado
Tinha acabado uma festa
À Senhora do Rosário por sinal
Teria quatro anos
Lembro-me das amarelas cores
Não há enganos
Acabaram mesmo as flores
No quintal
Havia outras Árvores
Outros odores
Plantaram-se mais figueiras senhores
A mirífica paisagem
Da cozinha lembrava amores
Sem enfrentar um queixume
Assassinaram as amarelas flores
Não era o acacial
Da costa a sul, fixando areias
No imediato sul da capital
Eram únicas que vi na costa Oeste
Únicas de bondade alterosa afinal
Acabaram, foi pena
Vegetava ainda o Nazismo, reino do mal

Daniel Costa

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


LALLY

Mora no outro mundo
Essa alma de mulher
No Brasil profundo
A Lally está no Maranhão
A mulher, a terna Lally
Mora para lá do Sertão
Embora mais moderno
Sempre o eterno Maranhão
A Lally não abastada, mas terna
Dois filhos saberão os deuses como
Vão sendo educados à moderna
Felizes de viver
Preparados para o mundo amar
Sendo transmissão de retorno
Para a mãe Lally os adorar
Ela sabe os filhos
Educar para o mundo amar
Os miúdos aprendem
A apreciar, não a odiar
São como que chamados
A construir um mundo salutar
Onde mesmo sem mordomias
Se possa viver, se goste de estar
É assim que Lally ama
Quem a sabe amar
Eis a denodada mulher
Lally sedutora, no andar
Como ninguém lutadora
Mulher interessante
Mãe dos imensos amores
Animadora incessante

Daniel Costa


POEMAS UM HOMEM SÓ


MÃOS CALEJADAS

Mãos calejadas
Era assim no passado
Resultavam de foices e enxadas
Enxada nas mãos de sol a sol
Não era figo maduro
Tanto nas sementeiras do pão
Como cavar à mão era dar no duro
E cavar vinha à ala?
Mantear para nova vinha plantar?
Era como abrir uma vala
E as mãos calejadas?
Calos cortados à navalha
No começo de cada dedo ainda
Há testemunho, um sulco, uma sala
Cavar vinha, ou ceifar como autómatos
Em cada homem um mundo
Um golpe, de uma enxada
Num mundo, também ele, de enganos
Tapava terra não arada
Bastantes diplomas de medalhas
As mesmas amadas e guardadas
Porém não representam mãos
Calos aparados, com navalhadas
Ainda apresentam os sulcos
Medalhas gravadas
Apenas morrerão amortalhadas
Gravaram-nas cabos
De foices e enxadas
Vidas passadas e vividas
Vidas cheias, por vezes recordadas

Daniel Costa

domingo, 26 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ



MARIAZITA

Mulher de segurança
Seguro pêndulo
Inspira confiança
Sempre serena e activa
Ou não fosse do ciclo balança
Vive nos arredores de Lisboa
Deambulará pela capital
Quem a não viu, não viu coisa boa
Esse atributo não lhe falta
É de crer que esteve na Madragoa
A beleza do atributo
Não cairia na lama
Também andaria nos becos
Nos becos da velha Alfama
Ali pelas vielas estreitinhas
Por onde andou a moirama
Por isso a elegante
A mulher de cultura
Séria e interessante
A um tempo séria e divertida
Mulher atraente
Respira amor à vida
Mariazita mulher deste tempo
Mostra-se desinibida
Mostra o seu talento
Mulheres de mente forte
Sempre serão alento
Oh Mariazita
Aprender contigo tento

Daniel Costa

sábado, 25 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


ESQUIZOFRENIA

Falar da doença bipolar
Falar da patologia
Não é de agradar
No caso antes grito
Conviver com alguém
Ainda que humano paciente
Parece vir uma voz do além
Gritar: tu és mentalmente doente
Conviver com a esquizofrenia
Parece, ou é o irreal da mente
Versão do sobrenatural
Dum mundo fabricado
Ao doente parece real
Não se discute a verdade
Aí residira o mal
É necessário paciência
Ouvir um eco
Uma definição a raiar ciência
Dum lado a hereditariedade
Onde se nota inteligência
No meio o elo, a idade
Passa por nós a evidência
Acabamos, momentaneamente, por ceder
Sofrer consequência
Ressuscitar de novo
Forte no sentido de humanidade
Assumir a doença, o polvo
Carregar com uma cruz
Da sociedade, do povo
Fazer parte das misérias
Tentando encontrar luz
Alegremente
Tentando seja bem conduzida a cruz

Daniel Costa

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


MULHER AMOR

A principio com Pudor
Sabendo que és minha
Mulher meu amor
Na intimidade
Acabo por ficar mais senhor
Olho com infinita paixão
Infinito ardor
Mulher coração
O aveludado dos teus seios
Hipnotizam meus dedos
Que fremem de fervor e anseios
Apalpado o teu aveludado corpo
Ziguezagueando sem rodeios
De repente
Com pequenos gemidos
Entras em êxtase
Parecem ter despertado os sentidos
Perdes então também o pudor
Entregas-te num desejado
Impulso de ardor
Ah!...
Mulher de puro amor
Como desejamos, mulher
Estes beijos com sabor
Como que a infinitas maresias
Como é gostoso o nosso amor
Feito de melosas sinfonias

Daniel Costa

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


ABRIL

Começa com o “dia das mentiras”
Assim, é um dia popular
Nada de safiras
No fundo um dia singular
Em “Abril águas mil”
É do vulgo popular
Mil novecentos e sessenta e quatro
Todo o santo dia chuviscou
Recordo esse desiderato
Chegava a Alcântara
Com extremo aparato
O navio Vera Cruz
Chuva miudinha
Uma desumana espera
Os senhores Generais
Tratavam milhares de homens
Como se fossem bandos de pardais
A espera para desfiles pressupunha
Quererem falar a animais,
Chuva miudinha caía
Sacos de comida individuais
Farda inadequada, não só para a madrugada
A rouquidão ameaçava
O Comboio de Chelas a postos
A Estremoz ainda nos levava
“Abril águas mil”, diz o ditado
Em Sessenta e quatro
Cumpriu-se o fado
Açafatas distribuíam flores
A qualquer casal estrangeiro chegado
Andavam muitos admirando
Na subida do velho Chiado
Com flores eram contemplados
O "Avril au Portugal" tinha chegado
Ninguém saberia
A casa de Garrett
O Teatro Nacional arderia
Em “Abril águas mil”
A democracia orgânica, o que seria?
Talvez a propaganda dos zeros
Em Abril com cravos acabaria!

Daniel Costa

terça-feira, 21 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ



FERNANDA

Se anda, se ciranda
Sempre a gostosa lisura
Adora-se a Fernanda
Veio do Arquipélago dos Açores
Ininterruptamente em fotografias
Apresenta as ilhas dos amores
São amores de Portugal
Apesar da insularidade
Ali uma bela imagem do Pais afinal
Que a Fernanda ama
Já mostrou a Lagoa das Sete Cidades
Enterrado na terra com o calor intenso
Cozinhados, satisfazem palatos de todas as idades
O chamado cozido à portuguesa
O panelão embrulhado numa serapilheira
O cozido no calor brando da terra
Apresenta um odor inesquecível a vida inteira
Mas a Fernanda? A mulher que escuta a alma
Nota-se no recanto que mira e fotografa
Na sua bela poesia que acalma
Dirá alguém que a mulher bela
Sabe cativar amizades
Terá um coração, como uma esbelta tela
É assim a Fernanda, gosta-se
Sabe apresentar-se, veja-se como é bela
Uma portuguesa insular bonita
Que na capital, Lisboa
Amar e fazer-se amar será sua dita

Daniel Costa

POEMAS UM HOMEM SÓ


SELECOR

Luz, sol e cor
Viver com amizade
Foi assim a Selecor
Emílias, foram três
Como se houvesse amor
Idílios talvez
De Emílio senhor
Mais uma aconteceu
Não foi sonho, nem fantasia
Talvez escuro, como breu
Coisas da memória
Ninguém leu
Medito nas coincidências
Estes acasos, vivi-os eu
Vidas de esplendores
Bastantes “acasos”
Devaneios e amores
Tudo feneceu
Uma partida de avião,
A modernidade valeu
Esplendores!...
De tudo aconteceu
Escuras e vãs glórias!...
Dias e noites de breu
Desconhecida partida
Um dia aconteceu!...

Daniel Costa

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


DIA DE S. CIRILO

Nem isto nem aquilo
Dezoito de Março
É dia de S. Cirilo
Dois mil e nove
Quarenta, anos depois
Antes de dezanove
Recordo sempre bem
Tornei-me menos pobre
Veio um mundo, uma Maria
Que grande dia, que grande luta!
A cântaros chovia
Pela primeira vez
Foi na revista Plateia
Popular como aquela não havia
Não saiu uma, mas
Duas vezes a minha fotografia
Ainda que em isenção de horários
Talvez por isso
Até em trabalho foi grande o dia
A chuva, em bátegas continuava
Surgiam parabéns
Para voltar ver a mãe e o rebento
Lutava e porfiava
Meus deuses!...
Era aquilo, era aquilo
Era dezoito de Março
Mil nove sessenta e nove
Dia de S. Cirilo

Daniel Costa

domingo, 19 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


VANUZA

Mulher altiva
Vejo assim Vanuza
Altivez que cativa
Não tem mente difusa
A Senhora Pantaleão, a Vanuza
Descriminação
Não usa
Quando amiga é do coração
Sentir a sua amizade
Suscitará emoção
Sabe ser cordial
Beleza interior a suscitar comoção
Essa mulher prendada em leis
Recorda com certa emoção
Os tempos de mulher menina
Tempos de ginásio
Os da sabatina
Enquanto evoluía
Deixava de ser menina
Divertida para a vida
Com vivacidade de heroína
A mulher Vanuza
Como todas as mulheres é divina
Vanuza coração de ouro
Contar com a sua amizade
Será contar com um tesouro

Daniel Costa

sábado, 18 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


LUA DE MEL

De mesinhas redondinhas
Pequenininhas
Que frequentava eu
O Café Paraíso
Da Lisboa antiga
Que feneceu
O último da Capital
Penso eu
"Lua de Mel*
Outro do meu Céu
Ali alguns dias estudei
Amigos conheci
Com eles convivi
Ali algo da revista Franquia
Elaborei
Prosas e poesias
Fiz, faço, penso e pensei
Está em Benfica
Onde havia as grandes
Festas da Mata
Onde aos Domingos
Se juntava a Nata
Fica na privilegiada
Avenida Grão Vasco
Vai dar à célebre Mata
Cujo Patrono
É o nome do Pintor
Silva Porto
Que tem ali estátua
Como grande Senhor
Foi ali que mesmo hoje
O amigo Gabriel de Sousa
Levou e foi oferecedor
O seu livro de Contos
“Espelhos Imaginários”
Fê-lo como encantador autor
 
Daniel Costa

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


ALINE

Mulher morena
Amar-te fui sublime
Foi amor de um dia
Amor verdadeiro
Será como dizem
Não há como o primeiro
Se não acredito
Aquele amor de mulher
Será sempre bendito
Era o despontar dum amor de mulher
Um dia roubei-te um beijo
Foi uma loucura
Forte desejo
Não gostaste
Por certo não correspondias
Porque logo retiraste
Mas olha Aline
O meu amor de mulher
Continua intacto e sublime
Continuas a mulher
Que um dia pronunciaste sim
Exultei, o amor
Ficou mais sublime
O amor de mulher
Não de um sentimento qualquer
Vivia o verdadeiro amor
O amor que deveria de ser um dia
O da minha mulher

Daniel Costa


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


DAR A VIDA

Realçando uma dedicação
Há quem diga dar a vida
Dar a vida por uma questão
É uma imagem
Tem havido quem dela
Se desfaça por desilusão
Seria a última coisa a ocorrer
A quem raciocine
Bem de antemão
Atentar contra a vida
Não será espírito são
Porém a imagem
Não será em vão
Talvez por humanidade
Por uma dedicação
Alguém ter passado para lá
A mesma dedicação
Acabou por trazer para cá
Ultrapassando a cancela
Depois o portão
Aventura, mesmo odisseia
De alguém que amando o mundo
Quiçá por isso, soube dizer não
Dá gozo a beleza do mundo
Onde reina putrefacta
Também grande podridão
Gostar de viver
Não será ilusão
Ao que não gostamos
De direito e dever diz-se
Não!...

Daniel Costa


POEMAS UM HOMEM SÓ


MARIA

Maria nome de mulher
Da mitologia é esplendor
Agora uma deusa
Será deusa do amor
Belo coração
Ardente de calor
Reluzente de emoção
Acabando um lindo parceiro
Sofre Serena
Não aceita o primeiro
O coração papita
Desejo de amor moderno
No etéreo e eterno acredita
Sonha, freme de amor
Chama de pura paixão
Aflora a fada madrinha
Mais a varinha de condão
Depois o Príncipe
Chegaria de balão
Que Maria de corpo belo
Sua mente não procura ilusão
Não é amor de um dia
É amor do coração
Promete amá-la até à eternidade
Com crescente paixão

Daniel Costa


domingo, 12 de setembro de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


RECORDAÇÃO

Vou contar um segredo
Sentia frémito, suave vibração
Quando fui guardador de patos
Com a manada ia para o Val Medo
Ninhadas do tipo marrecos *
A mãe sempre criava
Em procura no ciclo da carôcha **
Do guardador porfiava
Na imensidão do campo
Guardar agradava
O mar em frente
No princípio do Verão
Os patos deglutiam o molusco
Com sofreguidão
O pastor olhava patos e vastidão
Podia entregar-se às nostalgias
Muito comuns então
Sonhava com outro mundo
O eterno desconhecido
Seria melhor de antemão
Aquele não o sentia cruel, não
Seria como um universo de papel
Ali andavam os patos
Não se cansavam
Sempre direitinhos
Engordavam como calmos gaiatos
Pareciam gostar da gamela
Muito juntinhos
Não precisavam de trela
Até que valiam dez paus
Comprava-os o regateiro ***
O que, na sua carroça
Aparecia primeiro
O guardador ainda criança
Saberia ser feliz…
Agora, talvez um bom petiz!...

Daniel Costa

NOTAS:
* Raça de patos comuns
** Chama-se assim à caracoleta no concelho de Peniche
*** Corresponderia ao almocreve