sábado, 31 de julho de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


LÁ NO ESCRITÓRIO

Depois da jorna, sol a sol
Quero dizer, todo o santo dia
Coordenar o rancho
Na guerra de Angola
Dos militares de uma companhia
No princípio do rol
Passar pelo lugar de caixeiro
De ginjinha, como a Popular
Primeiro
Depois a chamada Avenida
Veio o inesquecível escritório
Era o da Fotogravura União
Da Travessa das Mercês
Um desejo nesta Lisboa ribeirinha
A suprema ambição
Que na vida tinha
Sem ninguém dizer o que fazer
Era sozinho de repente a absorver
Mundos de zincogravuras
Coordenava em horas a correr
Tipografias, revistas, jornais
Agências de publicidade, Laboratórios
Não sei que mais
Patrão Chico Bento presente reparava
Ao telefone algo combinava
Enquanto o outro tocava
Alguém atendia,
Porém o falante esperava
Parecia magia
A quem chão para os pés puxara
Era mil novecentos e noventa e Seis
Reapareceu um jornal
Tratava-se de o vespertino a “Capital”
Abria redacção, junto, frente ao “Século”
Todas as gravuras produzidas ali afinal
Pressupostamente não almoçava
Tinha de ficar atento
Pagava e recomendava
O admirador, já amigo
Patrão Chico Bento
Dali, constantes solicitações
Mais as do Manuel Ornelas
Do Fausto Gonçalves
Do Gomes, do Helder, do Canhão
Câmara Leme e muitos outros
Formavam um correpio
Pelos telefones internos
Atento, aprendia e resolvia
Se necessário a cada departamento
Oficinal observar o andamento ia
Chico Bento via
Assim mesmo, senhor Daniel
Por hoje tudo entregue?
Fica a engrenagem a rolar
Não se esqueça!...
Amanhã continuaremos
Nascia de novo o sol
Chegava novo dia
Mais a encantadora Magia

Daniel Costa

POEMAS UM HOMEM SÓ


ANGEL

Eis a flor
A alva Angélica
Sacrário do amor
O diminutivo de Angélica
Mulher torna-se sedutor
É Angel
Tem singeleza do amor
Peixes, embora, é selectiva
Ama e apresenta quem a conquista
Na sua sensatez de diva
Suas cores como a flor
São o branco
Branco que enfatiza o amor
Como o da Angélica flor
A bonita fotogenia de Angel
Protagoniza a palavra amor
Até o tal de cupido
Que de repente aparece
Com a seta a fazer sentido
Apresenta a mulher amada
A diva Angel
A mulher imaculada
Como é gostoso
Privar com Angel
Com seu falar meigo
Como despertasse
Na amizade um desejo
Ser apreciado pela meiga Angel
Vale a ternura de um beijo
Retribuir-lhe amizade
É um forte desejo

Daniel Costa

sexta-feira, 30 de julho de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ

Tristão da Silva

CALÇADA DA GLÓRIA

Em mil novecentos e tal
Sessenta e nove afinal
O locutor da Emissora nacional
Salão da Voz do Operário
No seu linguajar formal:
Apresentou o Fado Canção
”Calçada da Glória”
“Nove Milhões de Guitarras”
Na inconfundível voz do Tristão
Disse: que o artista nunca canse
De subir a Calçada da Glória
Casa cheia de espectadores
Ouviram, talvez não entendessem
Seria extensível a todos os senhores
Naquele Serão, festa de trabalhadores
Organizava a FNAT de então
Promovia um seu CAT de antemão
Além de outros, actuaram José António,
com “Transmontane”
E “Vira do Fundão”
Trio Boreal, com “Fadinho Serrano”
“Tudo Passará” e “Resineiro”
Não era engano
Cantou o Gabriel Cardoso
“Manhã Cedo” e “Promessa da Lua”
Isabel Fontes
“Somos Todos Iguais”
“Deus Como te Amo”
Festa minha e tua
Maria Armanda
“É Manhã” e “Chegou a Primavera”
Sissi, “Três Segredos”
“Ó Transmontana”
A Inefável Celeste Rodrigues
“O Meu Chaile” e “Abre A Janela ao Vento”
Esplendor. Festa, Triques
Em Junho, numa noite de Luar
Transmitiu a Radiodifusão
Nesta nova hora da história
Jamais alguém se canse
De tentar subir
A Calçada da Glória!...

Daniel Costa

quinta-feira, 29 de julho de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


PRESSA DE VIVER

Tenho pressa de viver
A um oitavo de década
Na segunda encarnação
Da primeira, nada arrepende
Recuperei a pressa de viver
Pois então!
Que hei-de fazer?
Se tenho pressa de viver?
Reparo que ainda estão
A fazer labiríntica gestão
Não acabaram os “boys”
Pois então
A segunda encarnação
Será mais curta
Porque tem de ser
Tenho pressa de viver
Traduz empurrar
O natural acto de morrer
Naturalmente é fazer jus
Ao ditado que diz:
“Deitar cedo e cedo erguer
Dá saúde e faz crescer”
Ou seja alargar o tempo
Nesta encarnação também uso
Tenho pressa de viver
Não ao desuso
Quem vai, com desejo de morrer
Deixo passar, quero viver
Abrir as mãos e dizer
Deixem-me, estou a fazer!
Tenho pressa de viver
Quero recordar
Os meus três anitos
Da tia que então feneceu
Da miúda, que de mãozinha dada
A subir a Rua me acompanhava
Recordo o desgosto
Porque logo morreu
Sempre com pressa de viver
Fiquei eu!...

Daniel Costa

quarta-feira, 28 de julho de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ

ROXANNA

TANGO

Não é fandango
Não é oriundo do Ribatejo
Também é dança, é o Tango
Da Argentina de Carlos Gardel
Abrange o mundo
Como tela, com efeitos de Pincel
Tango… Tango… Tango
Dança exponencial
Homem e mulher
Resulta numa dança sensual
Tango… Tango… Tango
Animas o arraial
Onde a dança gira
Sonoridade musical
Tens encantos de safira
Sonho de topázio
Pareces esmeralda
Paixões a que o Tango dá azo
Tango… Tango… Tango
Tanta gente rodopia
Tanta gente amando
Parece ter fobia
O tango dançando
Tango… Tango… Tango
Santa alegria
Todo o mundo amando

Daniel Costa


terça-feira, 27 de julho de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ



ESCLUSIVISMO

Há inúmeras manias
Por vezes são fantasias
Tenho a minha bizarria
Delas falaram-me um dia
No momento uma tara definia
Desde então sempre a revia
Falar dela me comprazia
Talvez devido ao novo século
Que chegou um dia
Do anterior não ficou dor
Não ficou desamor
Questiono se fiz
Se a conjuntura o fez
Algo de exclusivismo
Anotei uma vez
Aos dezasseis anos
Ganhar jorna de homem
No Casal Torneiro
Terá sido favor que um deus fez?
Aventura, força de querer, sensatez?
Estimulante talvez
Porque cavei
Acima da média, a jorna, ganhei
Em três concelhos do Oeste
Peniche. Bombarral e Lourinhei*
No campo, de sol a sol trabalhei
Na guerra de Angola
À coordenação do rancho cheguei
Em Lisboa, trabalhando, estudei
Nos trabalhos dirigi e coordenei
Que mais sei?
Ou por outra, quanto mais observo
Quanto mais procuro, menos sei
Mas este é o meu tempo
O de me achar com direito
A alimentar a mania
Da exclusividade do dia

Daniel Costa

* NOTA: O EI era muito, da fala popular,
do meu Oeste natal.
Aqui refere Lourinhã.





segunda-feira, 26 de julho de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


CELINA

Mora na Riviera, não na francesa
No hemisfério sul, outra costa
No Uruguai, outra estância com certeza
A ampla cidade da Riviera
Outra solarenga beleza
Cidade da Paz
Sempre um mundo de singeleza
Beleza tem a Celina, essa concertista
De seduzir, de fazer reflectir com destreza
Mostrar a sua natureza de mulher
Mulher de sentimentos de pureza
Ali na fronteira sul do Brasil
“Habla” a língua portuguesa
Mulher mãe a sua arte a detém
Vive serões a tocar piano
Deseja apresentar forma além
Mulher bela e bonita
Porte atlético, bela mulher mãe
Quando passa, olha-se ninguém dirá
Passa uma alma de fazer germinar o bem
Prende o olhar, ela é um amor
Sempre interessante elegante e bonita
Como uma se fora uma flor
Generosa até mais não
Não se vê, mas observando bem
Vislumbra-se a interessante beleza interior
Essa mlher de quem se gosta
Se acena de perto, há o teclado do computador
É a interessante Celina
A mulher elegante e bela, mulher amor
Depois de a conhecer bem
Gosta-se do seu olhar gaiato e sedutor

Daniel Costa

sábado, 24 de julho de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ

Estátua Princesa do Tua, o rio passa defronte

PRINCESA DO TUA

Bela Mirandela, és demais
Onde se espraia o Tua
E a ribeira de Carvalhais
Passando serena
Nele desagua, nem mais
É num recanto
Formado pelos dois
Que majestosa em pedestal
A princesa a dominar pois
No seu porte magistral
Parece orgulhar-se de que a apelidem
De Princesa do Tua afinal
Entre serras Mirandela
Pareces um arraial
Como és serena e bela!
Bastaria as águas límpidas
Do teu Tua para pareceres tela
O Rio a formar-se
Do Rabaçal e Tuela
Não longínquos
Que se juntam e formam
O sereno lençol de água uníssonos
Que o Tua apresenta a Mirandela
A Princesa contempla
Benditos os olhos
Que miram o conjunto
Embevecidos olham outros adereços
A formar a entrada
A velha ponte romana
Os seus nichos de idade avançada
 O repuxo como que a beijar a lua
Sonhadora Mirandela
Com o teu lendário Tua
Tens tudo para seres tela
Cidade amena
Serena e assaz bela

Daniel Costa

sexta-feira, 23 de julho de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


SENHORA DA BOA VIAGEM

Na varanda marquei Peniche e Berlenga
Posso parecer tolinho alucinado
Explico, haverá quem entenda
Se o vento sopra do norte
Olha-se a ilha levanta-se a tenda
Não chove, vê-se longe a Berlenga
No campo semeia-se o trigo
A ausência de chuva não será lenda
Do rural campo vem o pão
Do mar da vila o peixe
Depois vem o Verão
Todos em festa agradecem a Deus
Da Senhora da Boa Viagem a intercessão
Junto ao mar, no Alto da Vela
Ali à beira o gozo e a diversão
Festa e folia, pois então
No alto mar passará a procissão
Nos barcos, muitos vamos entrar
Fazer a viagem de adoração
Olhem-nos todos engalanados!...
Flâmulas e miríades de luzes
Nas águas reflectem um vistão
Seguem perfilados, passando o Carvoeiro
A meio percurso da Berlenga
Viram, como apontassem à Consolação
Num segue o andor com a Senhora
Ali vai Soberana, como protectora
Num outro a banda, tocando
Fazendo solene a ocasião
Já no cais a apoteose, com grande animação
Fogo de vista aquático e a emoção
Embevecida a Senhora da Boa Viagem
Preside e pensará:
Adora-me este povão!...

Daniel Costa


POEMAS UM HOMEM SÓ


ANJO SEDUTOR

Conta-se que um dia
Um Anjo sedutor
Apareceu a Maria
Passaram mais de dois mil anos
Sem pecado ela conceberia
A partir do seu ventre a maldade
Do mundo desapareceria
Porém este mundo foi sempre de enganos
A maldade sempre proliferaria
Tinham passado os profetas
O menino nasceria
Apenas uma profecia: humildade!
O mundo assim seria
Numa pobre gruta de Belém
Para preconizar o bem Jesus viria
Deus feito homem aos humildes clamava
Maria Madalena conheceria
Três mulheres
As que muito honraria
Ana, Marta e Maria Madalena
Sua mãe deixaria ser apenas Maria
A maldade humana era tanta
Que pregado numa cruz morreria
Deixou discípulos a clamar
Por todos os lados até em desertos
Valeu nada
A maldade, os homens fez despertos
Muitos dos grandes do mundo
Continuam a usar a prepotência, como em desertos
Neste Natal, em todos os Natais
Censuro-te mundo pelos infiéis e desonestos
Lutarei sempre mais
Para que o Anjo sedutor
Convoque que todas as Marias do mundo
Para que sempre nele floresça o amor
Bem vindo sempre
Um Anjo salvador, ainda que sedutor

Daniel Costa

quarta-feira, 21 de julho de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


Bailarina luba, quioca da Província angolana da Lunda, cuja capital é Saurimo.
Oficialmente, foi Henrique de Cavalho.

MULHERES QUIOCAS

Interessantes as mulheres quiocas
Estão na Província angolana da Lunda
Bonitas, como poucas
Vivem na fronteira com o Zaire
Zona diamantífera de histórias loucas
Usual e habitual a poligamia
Labutam no campo, como poucas
Quando perdem o cabaço
Com o homem amado, ficam taralhoucas
Pintam de branco o seu corpo
Fica belo e alvo enquanto tisnado
Como quem diz olhem: já pertenço a alguém
O rico como polígamo
Estima-se pelas mulheres que tem no harém
Na margem do rio Luachimo
É feito o casamento
Por negociações,
Designa-se alambamento
Aconteceu um dia
Como gado não havia naquele momento
Reunira-se os anciões
Para se efectivar um casamento
Funcionariam muitos tostões
Foi apenas uma observação
Não passava disso, de início de serões
Conferenciavam na sua língua
Teciam: a miúda é bonita
Ainda tem cabaço
Vale, um homem de bens
Valorizavam, faltava apenas o laço
Genarié?
A menina ainda tem cabaço!
Mata… ai ué!

 
Em quioco:
Cabaço = virgindade
Genarié? = Como se chama?
Mata = senhor
Ai ué = ai Jesus

Daniel Costa

POEMAS UM HOMEM SÓ


Artur Agostinho, um homem multifacetado, notável comunicador, foi-o na rádio, na televisão, em jornais (Director do Record, jornal desportivo) - foto Internet

AOS DOMINGOS

Estava numa outra idade
Tempos com poder de saudade
Muito cedo badalavam os sinos
Era aos Domingos
Tudo se erguia e antes da capela
Passava-se na sacristia
Dava-se início a maravilhoso dia!...
Depois um ritual de louvor
Ao Deus Senhor, dito Salvador

***
Nas tardes outro ritual
A constituir vida simples e original
A audição do futebol na E. Nacional
O Artur, o Nuno, o Amadeu
De memórias, que mais sei eu?
Numa produção da Sonarte
Três jogos em simultâneo
Um sonho de arte
Dizia, agora o Agostinho
Aparecia o Nuno: Atenção Amadeu!....
Aqui o esférico vai chegar ao Matateu.
Rematou!... Não foi!

***
Aqui Albano dá para Tavassos
Passou para Jesus Correia
Foram demasiados passes

***
Olha, aqui aconteceu tremideira
Acorreu o Ângelo
Protegeu, não era preciso
Chegou o Moreira

***
Assim se passava bom Domingo
O sétimo dia, a felicidade
Certamente inteira
A seguir o trabalho
O campo e o doce orvalho
Chegava a Segunda-Feira.

Daniel Costa


terça-feira, 20 de julho de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


A CHAVE

Estou sisudo
Penso em tudo
Tenho há a chave
Penso nela
Ferramenta singela
Remédio para tudo
Faz falar o mudo
Abre a capela
Fecha a porta
não a janela
Onde falo com ela
Chave é segredo
Guarda o medo
Abre tudo
Com chave
Mundo não é só maldade
É também a saudade
Chave é sorriso
Porta de siso
Fim de lamentos
Êxito de inventos
Com chave finda a sofreguidão
Começa a mansidão
Com essa gazua imortal
Acabará todo o mal


Daniel Costa

domingo, 18 de julho de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


Um dos quadros de rendas de bilros, de Peniche,
que actualmente decoram as paredes da sala,
 onde a minha mãe fez rendas, com perfeição e preseverança,
até pouco antes da sua morte



RENDAS DE BILROS

A verdade é salutar
Falar em rendas de bilros
É folclore, é falar do mar
Falar delas, das de Peniche
O século passado é recordar
A cidade de Peniche
Delas era um altar
Nos anos quarenta sabia ler
Com emoção ouvia o doce marulhar
O artesanato das rendas
Eram complemento da economia familiar
Minha doce e analfabeta mãe
Era uma rendilheira de encantar
A dedilhar os bilros
Lia-lhe histórias de pasmar
Garoto ainda, do café e das bolachas
Fazia-me participar
Executava ela os furos dos piques
Os moldes, as linhas, eu a traçar
Na noite sentia-se e ouvia-se
Por vezes, um doce marulhar
Outras a rebentação
Essa sensação de encantar
Depois as alterosas ondas
As rendas fizeram inspirar
Respeitoso medo e sensação
Os desenhos das rendas
As próprias, nasceram dessa oscilação
Desse encantamento
Da ondulação

Daniel Costa
Texto e foto