terça-feira, 31 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ

Ihéu da Berlenga

MEU OESTE NATAL

Foram vinte anos, os que vivi
Naquela casa construída
Em mil nove trinta e quatro
Mesmo quarto em que nasci
Foi-me me agora designado, por dias,
Adorei!... Dele parti
Rumo ao Bombarral
Visitar, numa escola, um irmão
Desci ao Casal do Urmal
Confraternizei com o enciclopédico
Velho amigo António Elias
Recordámos! Não fez mal
Um outro dia!... Peniche
Sempre observando a cidade
A velha ilha de pescadores, por sinal
Cabo Carvoeiro
Mais a Escada de Pilatos
Descendo ao mar, por entre pedraria
Trabalhada pelas marés
Defronta, o rugido do mar afinal
Numa admirável demonstração
Insana do trabalho da natureza
Requer um olhar de admiração,
Sem leveza
E a Nau dos Corvos?
Do mesmo nome ali está
Na ponta do Cabo o restaurante
Encimado do inesquecível mirante!...
Frente à Berlenga
Visão de outro mundo
Imenso Éden, figurino de beleza
Proporciona, a mãe natureza
Sempre pela marginal
Passei pelo Baleal
De novo, o avistar dum mundo
Parecia irreal
A Berlenga de novo, ali à mão
Alguém disse: a ilha parece perto
Temos chuva por certo!
À noite muito trovejou
Seguiu-se uma bátega de água
Não, é realmente profecia
A marcação dos tempos
Mentalmente, funcionando
Na varanda da minha lisboeta casa
Quer seja noite, ou dia.

Daniel Costa


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


TALINA

Mulher interventiva
Bastante directa
Talina é activa diva
No Oeste será discreta
Como é a gente da Serra
A escrever é directa
Muito terra a terra
Quem tiver medo da verdade
Terá de a evitar, evitando mentir
Use transparência
Não ouse mentir, ainda que a fingir
Tem agruras esta vida
Há que a percorrer limando arestas
No mundo está a Talina
Há que contar
Com a sua auto-estima
Talina nunca deixa de estar atenta
A notícia de manobras
De política pestilenta
Talina, mulher mãe, mulher avó
Mulher vivida
Mulher aguerrida, nunca esteve só
Acena-se-lhe com fervor
Merece a doçura devida a uma avó
Talina ainda que sofra agruras
É interventiva
Jamais será mulher só

Daniel Costa


domingo, 29 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


OLHOS VERDES

Senhora dos olhos verdes
confesso a minha paixão
quando te beijo na face
adormece-me o coração

Quando te vejo partir
rumo à tua ocupação
logo fica a saudade
disfarço-a numa oração

Na tua ausência
a vida é tormanto
se te perdesse
recolheria a um convento

Senhora dos olhos verdes
minha tentação
vejo-te num altar
como ícone da minha devoção.

Daniel Costa

sábado, 28 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


LISBOA DO TEJO

Nos meus doirados
Anos sessenta
Abril o turismo a dar brados
Cheguei ao céu sonhado
A Lisboa do meu eu
Da janela do meu quarto
Na casa onde morava
Era Zeus, ou um Zeu
Avistava o Tejo
Via o Rio benfazejo
No Bairro da Graça
Rua bem comprida
Como se fora desejo
Pouca gente passava
Santa Engrácia
Calçada do Monte
Luzes em noite de breu
Portas de Santo Antão
Teatro Dona Maria
Mês em que este ardeu
A desgraça via
Deus meu!
Olha a D. Amélia Colaço!
A Liberdade subia
A Avenida a trazia
Parque Mayer, Café Lisboa
Pedaços do meu sonho
Não apareciam à toa
Sonho de um dia
Concentrado
Nos artistas, que via
Max,
Paulo Renato,
Francisco José
Tristão da Silva
António Mourão
Mais velhos do que eu
Do tempo de então
O dos capilés
Das limonadas
Das salsaparrilhas
Tudo com soda, como refresco
Saborosos licores de controlo
Ginja com ou sem “nellas”
Como dizia o espanhol
Eduardino,
Timpanas registado
Da designação desviado
Lisboa do fado
Fado vadio
Cantado nas baiúcas ao desafio
Alfredo Marceneiro
António dos Santos
Não o carpinteiro
Mais sofisticação
A Amália Rodrigues
Popular a Hermínia Silva
Perpetuava a velha “Tendinha”
Mais a Popular Ginjinha
Templo onde iniciei
Razão porque a queria como minha
O Café Lisboa o Parque Mayer
A velha Lisboa,
O fado e a ginjinha

Daniel Costa

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


INÊS

Graça pequena
Siso traquina
Menina risonha e serena
Docilidade feminina
É assim uma pequena senhora
Uma grande menina
Com algo de senhora professora
De trabalho, a ala
Que também acha dela Inês
Pode ser escritório, mas jamais sala
Cinco anos e meio, criança
Ainda brinca com o Danicas
Fica a lembrança
De ser bébé não se lembra
Nem de que a sua meninice
Ajudou avô
Parece tolice
Mas este lembra
Ambas e a sua segunda meninice
Duas intervenções cirúrgicas
Sofridas sem pieguice
Da última ainda convalescente
Sem tolice
Tão bem, com equipa médica, conversou
Que foi premiada
Com trajo de Doutô
Que tenhas sempre beleza interior!...
Como tinha o avô do teu materno avô!...

Daniel Costa


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


AVENTURA

A vida é aventura
É-o mesmo que seja
Extremamente dura
A minha se bem contada
Faria chorar
As pedrinhas da calçada
Quiçá o átomo
Mas que nada
Olhemos com optimismo
A sempre fiel amada
Esquecer, não resulta
Equacionar tormentos, sem fim
Resultaria muito ruim
Falo das boas recordações
Dirão muitos:
Mundos de ilusões!...
Falar só em jeito de aventura
Da vida, é atitude segura
Pressupõe optimismo de puritano
Brinquedos, digo em segredo
Só os que fabriquei – aventura!...
Hortas e árvores
As que semeei e plantei
De cereal, confesso que sei
Em enologia total trabalhei
Por fim de sol a sol
Ceifando a jorna ganhei
Tentar perseguir
Alguém ainda cavador
Devia ser vergonha
Dos prepotentes senhores
No Circulo de Leitores
Mais audácia e arrogância
Deveriam ter quando expulsos
Prepotentes, que podiam fazer?
Trabalhassem com lisura
Muito tinham de aprender
Deveriam ter sido subservientes!...
Jamais necessitaria de dizer sim
A prepotentes
Nada de hombridade
Criaram ambientes
Pior que masmorras da PIDE
Devem!…
Nunca responderam porquês
Podem, continuar a ser prepotentes!
Oh Zeus!...
Mais uma aventura adeus
Sei trabalhar, há mais a fazer
Outra aventura
Encontrarei outros ateus!...

Daniel Costa

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


ZÉLIA

Jamais usei toga
Sonhava conhecer
Uma cultora de yoga
Ala arriba
Longe, uma elegante mulher
Estava na cidade de Curitiba
Uma interessante mulher
Bonitos cabelos louros
Não me atrevia a olha-la sequer
Seus olhos azuis
Não denotavam altivez
Serenidade de mulher
Mulher bonita e de sensatez
Apelido Nocolodi
A Zélia me olhou, perdi a timidez
Zélia como interessante
Mulher que é, não usa altivez
Representa beleza, escreve poesia
Belíssima poesia é poetisa de vez
Com o yoga medita
Escrevendo poesia, parece que Deus a fez
É assim Zélia
Na cidade de Curitiba
Adoráveis filhos desvela
Zélia atraente, elegante bonita
Foi prazer conversar com ela
Eis a interessante Nocolodi
A bela mulher, nome próprio Zélia

Daniel Costa

terça-feira, 24 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


QUATRO DE OUTUBRO

S. Francisco de Assis
Veio ao mundo a quarto de Outubro
Pai contente, mãe feliz
Quatro de Outubro
Nascia o primeiro petiz
Escolhe o nome o patriarca
Como se irá chamar, diz
Como o filho do barbeiro Claudino
Tem nome pouco vulgar
Daniel é o nome do menino
Porque não Daniel?
Assim se chamará o pequenino
Profetas e Santos
O Borda D’Água
Menciona tantos!
E o Daniel teve sorte
Amará a sua graça
Não tem dúvida, até à morte
O pai era muito humano
Pelos nomes dos filhos
Foi um perpetuador insano
Um outro barbeiro
O Ambrósio mano
Tinha de acontecer
Outro filho
Teve de Ambrósio ser
Ninguém desejava
Foi Daniel o primeiro a saber
Como por profecia suicidou-se
O destino a vencer

Daniel Costa


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


RADIONOVELAS
FOTONOVELAS

Antes de chegar e ainda com a Televisão
Rádio Novelas e Fotonovelas
Constantemente em exibição
Na rádio duraram elas
Depois passaram à pantalha
Do mundo da visão
Entre outros, actuavam na radiofusão
João Lourenço, agora encenador
Henriqueta Maia, Irene Cruz
A lembrança regista Álvaro Benamor
E os romances do Tide?
Revistas de fotonovelas
Estava activa dona PIDE
Para donas de casa eram amor
Em capítulos de revistas
No “Magazine,” produzido pelo Más
Na “Plateia” do Dias e Mário de Aguiar
Parte integrante da colmeia
Específicas da Palirex, da Íbis
Agência Portuguesa de Revistas
Colocavam a banca cheia
Estes alguns produtores
Muitos da Corin Tellado
Eram produto enlatado
Recordo as da Palirex
Revistas, como a “Zaida”
Lembro também a “Dora”
Acabaram cedo, não teriam saída
O Idílio, a Carícia
Um mundo encantado de delícia
Segredo do indomável talento
Do Roussado Pinto
Metamorfoseado em Edgar Cagil
Haverá subtileza, não minto
Artistas esporádicos
Performances belas
Numa protagonizava
Nunes Forte e Cristina Cassola
Fotogenia, arte para fotonovelas
O Emílio, o Monteiro
Porque não o nome da sedutora
Maria José primeiro?

Daniel Costa

sábado, 21 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ

Imagem obtida da janela de um oitavo andar de hotel de apartamentos na Praia da Rocha. Repare-se notranstlântico de cruzeiros ancorado ao largo da majestosa estância turistica.

PRAIA DA ROCHA

Oh Praia da Rocha
Na foz do rio Arade
Terás sido a primeira tocha
De povos, como Suevos, Alanos
Gregos, Cartagineses
Também vieram Romanos
Todos ali aportaram
Por fim Muçulmanos
Junto da Cidade de Portimão
Domínios conquistados por luso humanos
A foz do Arade lá está piscando maganão
Quem aporta à Praia da Rocha
De passagem, admira Portimão
Depois um saltinho às praias
Do Vau e Alvor, nas festas de Verão
Como na cosmopolita Praia da Rocha
Onde passam as elites em animado serão
Beldades sem fastio
Veremos com o verão
No Solstício do Estio
Abrir a “vernisage” criar protagonismo
Manter imagem, eis o desafio
Ou reconquistar o amor
Que parece andar arredio
Oh Praia da Rocha, Navios de Cruzeiro
Ancoram, fazem desvio
Conhecer mundo é brilhante
Sonho de festa, um desafio
Praia da Rocha do mundano Verão
Do Algarve mais um pavio
És senhora desse condão

Daniel Costa
Poema e foto

POEMAS UM HOMEM SÓ


ZULLY

Mora no Brasil a Zully
Uma interessante mulher
Olhos verdes bonitos como rubi
De olhos verdes naturais
Vive no Paraná na foz do Iguaçu
Olhos brilhantes como Corais
Onde a enguia é muçu
Ali passeia a sua elegância
Como em pedestais
Mulher que olha o infinito
Com olhos verdes naturais
Bonita segreda-me o instinto
Atraem olhos verdes reais
Olhos verdes faiscantes
Que são leais
Belos como diamantes
Adoro a Zully
A bonita mulher
A amiga que nunca vi
Neste mundo hodierno
Onde a tecnologia coloca tudo ali
Porque não vir a esperar
Encontrar um dia a bonita Zully?

Daniel Costa

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


DONA MICAS

Na aldeia do Oeste
Num dia invernoso, agreste
Nuvens negras no céu
Tudo escuro como breu
O farol da Berlenga
E do Cabo Carvoeiro
A deitarem urros no éter
Alertando o marinheiro
Dirigindo-se mais ao timoneiro
Na costa a sul do Carvoeiro
Avistam-se ondas muito altas, medonhas
Ululam ao desfazerem-se na rocha
Fazendo estrondo como que a bater o pé
Pareciam dirigir-se a humanos sem fé
Dona Micas segue rua acima
Como que a visar os quatro moinhos
Cada vez mais a eles se arrima
Segue com o seu manto negro
Qual bruxa maldita, a meter medo
No cordame das velas dos moinhos
Assobiam búzios tristonhos
A bruxa, qual fantasma negro maldito
Vai distribuindo conselhos
Dizendo: é prenúncio do finito!
Ninguém acreditava na dita
Porque teriam esperança
Num Deus de justiça bendita

Daniel Costa


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


SUAVE GRITO

Maria Dolores
A quem me prendi
De amores
Bem tudo corria
Até que,
Um certo dia
Apareceram
Ataques de epilepsia
Não vieram só
Também a esquizofrenia
De meter dó
Não feneceu o amor
O amor de algum dia
Amor de humildade
Sempre amor
Quiçá de humanidade
Talvez a procura
A sinceridade
Não possuir vaidade
Pensar defesa de entes
O grito de sanidade
Com sorrisos
O grito tranquilo
Foi sendo abafado
Salvar o espaço
Era fado
Veio a compensação
Merecia?
Talvez sim, talvez não!
Sempre sorridente
Graças à Dolores
Tomou posição
Floriram os amores
Dei volta ao cosmos
Veio nova encarnação

Daniel Costa


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


RENATA

Mulher de letras intemerata
Na pose, na cultura, no amor também
Qual vulcão!
Seu nome Renata
Rê para os amigos, mas Renata Maria
Mais atraente, nome que tem
Com a sua aparente candura, ver-se-ia
Alma bela de poetisa, estrela reluzente
Emana amor, o grande senhor
Interiormente cadente
Exteriormente seu porte é amor
Quando ela passa
Passará a mulher feita tela? Não senhor
Se bem observada
É elegante, sua tez, olhos e alma
Sempre cadente o amor
Sua mente brilhante
Comparável a uma constelação
A um grupo de estrelas
Ao Cruzeiro do Sul, porque não?
Que não ceguem o brilho
Mesmo o esvoaçar cintilante
Bem observada de antemão
Passa uma mulher bela
Mente rica, a seguir seu trilho
Passa a singularidade de uma tela
É a Renata Maria com seu brilho
A grande Renata, mulher singela
Singularidade da pose e da cultura
Renata, se observada quando passa
Observando-a e meditando
Nota-se uma mulher escultura

Daniel Costa


terça-feira, 17 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


GRANDES CIDADES

Grandes cidades
Mundos de vaidades
Mundos de leis
Esses traços banais
A que só atentam os leais.
Para os demais
Mais os tais
Essas são irreais.
Grandes cidades
Berços de "Beatles",
De "Hippies" e siderais
Usando trajos de florinhas
Pelas suas cores infernais
Escandalizam cidadãos nomais.
Grandes cidades
Mundos de actos pouco formais
Berços de homens loucos?
Apregoando estados abismais
Preconizando o retrocesso
À época dos avós dos nossos pais.
Grandes cidades
Da era lunar
Onde reina a poluição
Se representa a confusão
Se criou o "Cristo Sperstar".
Por fim a globalização
Haverá mais que inventar?

Daniel Costa
1972

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

POEMAS UM HOMEM SÓ


VELHO ELÉCTRICO

Desembarcando dum Cacilheiro
A primeira vez a Lisboa passei
Chegava do Algarve
Era noite, viajava via Barreiro
Estava a meio de uma odisseia
Uma viagem sem parceiro
Percorri a pé a Rua
Do Terreiro do Paço
Até à Praça da Figueira, primeiro
Aí o Metro tomei
No subterrâneo viajei
A minha primeira vez
No Campo Grande
A ligação ao Eléctrico apanhei
Foi em Novembro
De sessenta e um,
Sempre recordarei
Mais tarde muitas vezes
No velho Carro Eléctrico andei
Lá ia ele prazenteiro
O da Graça
Sempre à roda, num vai e vem
Os da Avenida da Liberdade
Passavam muito também
Praça do Chile, Benfica
Prazeres, Cais do Sodré
Sempre num vai e vem
Estrela, Xabregas, Dafundo
Amoreiras, Morais Soares, Arieiro
Avenida Almirante Reis primeiro
Gomes Freire era, pois ainda é!...
Carnide, Alto de S João
Pois então
Pampulha, Alcântara, Ajuda
Tudo tinha sentido
Eléctricos em qualquer ocasião
Ficaram alguns para turistas
Ainda os elevadores
Da Glória, do Lavra, da Bica
O artístico de Santa Justa
Visões de verdadeiro artista
Carros Eléctricos formavam um mundo
A velha Lisboa
Movimentava-se nos amarelos
Transportes do povo de então
Aqui uma recordação

Daniel Costa